23 - abril - 2017

600 cidades marcham pela ciência

Protesto global no sábado reuniu centenas de milhares de pessoas nos seis continentes contra o negacionismo climático e a tentativa de silenciar cientistas de Donald Trump

Manifestantes em frente ao Museu Nacional durante a marcha no Rio (Foto: Tatiana Rappaport)
Manifestantes em frente ao Museu Nacional durante a marcha no Rio (Foto: Tatiana Rappaport)

CLAUDIO ANGELO
LUCIANA VICÁRIA
DO OC, EM BRASÍLIA E SÃO PAULO

Centenas de milhares de pessoas marcharam em 600 cidades do mundo inteiro ontem pela ciência e contra o negacionismo das mudanças climáticas. Os protestos, feitos para coincidir com o Dia da Terra, tiveram como pano de fundo o obscurantismo professado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

À exceção da Antártida, todos os continentes registraram marchas (a Groenlândia foi representada por um grupo de 16 pesquisadores que desafiaram o frio na vila de Kangerlussuaq para posar com cartazes alertando contra o degelo polar). Uma das maiores aconteceu em Chicago, nos EUA, e reuniu cerca de 40 mil pessoas, segundo o jornal Chicago Tribune. Em Washington, os organizadores esperavam reunir 150 mil pessoas no National Mall, a avenida dos monumentos, mas a chuva atrapalhou os planos.

A Marcha pela Ciência foi inspirada na Marcha das Mulheres que aconteceu no dia seguinte à posse de Trump e levou mais de 1 milhão de pessoas às ruas em Washington. Havia entre cientistas o temor de que o republicano fosse promover um ataque à pesquisa científica e à liberdade de investigação durante seu governo, depois de ter passado a campanha classificando o aquecimento global de “fraude” e questionando a eficácia das vacinas.

Os temores foram confirmados: já no dia da posse, Trump eliminou todas as referências à mudança climática no site da Casa Branca. Na semana seguinte, baixou uma lei da mordaça nos cientistas de agências federais, como a Nasa e a EPA (Agência de Proteção Ambiental), proibindo-os de falar sobre ciência do clima. Em sua proposta de Orçamento enviada ao Congresso, cortou mais na EPA (31%) do que em qualquer outro órgão federal, tirando o dinheiro do meio ambiente para aplicar nas Forças Armadas. Programas de observação da Terra da Nasa foram descontinuados para favorecer a exploração espacial.

“O moral entre cientistas do governo está muito baixo, porque a ciência está sob ataque desta administração”, disse ao jornal inglês The Guardian o climatologista Michael Mann, da Universidade da Pensilvânia. Ele foi um dos palestrantes na marcha em Washington, que contou ainda com a ex-secretária-executiva da Convenção do Clima, Christiana Figueres, e diversos cientistas famosos – como o engenheiro e apresentador de TV Bill Nye, o “Science Guy”.

Vários cartazes bem-humorados desfilaram nas marchas. Vários deles faziam troça com os “fatos alternativos”, o eufemismo trumpista para “mentira”. “Ciência, não silêncio” era um dos slogans mais frequentes – na linha de vários que desafiavam o presidente americano a calar cientistas, como “pergunte a Galileu se isso funcionou”. “Mais equações, menos invasões”, dizia um cartaz em Londres. Em Amsterdã, uma placa foi direto ao ponto: “Não dá para pegar a ciência pela xoxota”, em alusão ao famoso vídeo no qual Trump se gaba de agredir mulheres sexualmente.

Sem responder diretamente aos protestos, Trump soltou uma nota sobre o Dia da Terra afirmando que sua administração está comprometida com “os objetivos gêmeos do crescimento econômico e da proteção ambiental” e defendeu a redução de “ônus desnecessários aos trabalhadores e empresas americanas” [leia-se regulações ambientais] como forma de obter mais proteção ambiental – uma linha de argumento que os cientistas chamariam de “non sequitur”.

TESOURAÇO

No Brasil, protestos aconteceram em 25 cidades, segundo a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), a maior parte deles de pequena escala. No Rio e em São Paulo, a chuva também atrapalhou, aliada ao feriado prolongado de Tiradentes. A SBPC estima que cerca de 400 pessoas tenham participado do ato na capital paulista, segundo a Polícia Militar, e 400 no Rio, na Quinta da Boa Vista. Em Brasília, 180 pessoas marcharam na Esplanada dos Ministérios até o Congresso, segundo a PM.

O mote das manifestações no Brasil foram os cortes orçamentários drásticos que vitimam a pesquisa desde 2014, mas com especial dramaticidade em 2017: neste ano, o contingenciamento imposto pelo governo Temer ao orçamento federal tirou 44% dos recursos do MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Informações e Comunicações), que já eram os mais baixos em uma década. Segundo Fernanda de Negri, pesquisadora do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a queda em termos reais (ajustada pela inflação) é de mais de 65% em relação a 2010, ano de pico orçamentário.

Em protesto contra os cortes, dezenas de manifestantes no Rio promoveram uma “orquestra de tesouras” em frente ao Museu Nacional, cortando o ar com seus “instrumentos” para produzir uma espécie sinfonia da pindaíba. Os físicos Ildeu Moreira e Tatiana Rappaport, da UFRJ, que organizaram o “tesouraço”, dizem esperar que este seja o início de uma série de protestos contra o sucateamento da pesquisa no Brasil.

Em Brasília, uma marcha modesta conduzida por um carro de som soltou balões em frente ao Congresso Nacional após percorrer a Esplanada gritando palavras de ordem de tempos em tempos. Participaram pesquisadores da UnB, da Embrapa, da Fiocruz e de outras entidades. Um sindicalista no carro de som chegou a tentar puxar uma vaia em frente ao prédio do MCTIC, mas foi ignorado. Alguns bradaram contra o governo “golpista” de Michel Temer.

“Já estamos vendo a decaída resultante do corte dos recursos”, disse ao OC Laila Espíndola, da Faculdade de Farmácia da UnB, citando pesquisas interrompidas e bolsas cortadas.

Em São Paulo, em um palco montado no largo da Batata,  Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC), inflamou a plateia ao falar dos cortes no orçamento e do ceticismo do governo em relação às evidências científicas. Por lá, o público se dividiu entre os discursos de palanque e uma feira de ciências montada por universitários para divulgar seus experimentos.

Jovens entusiasmados davam explicações sobre réplicas de fósseis e enigmas matemáticos e geralmente davam uma jeito de falar sobre a importância da ciência para o desenvolvimento do país. “A ciência faz as pessoas acreditarem na democracia”, disse o bioquímico Hernan Chaimovich.

No próximo sábado, uma marcha global ainda maior já está marcada: é a Marcha dos Povos pelo Clima, mais abertamente política e anti-Trump.

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