22 - fevereiro - 2018

Além de cozidos, agora dissolvidos

Acidificação dos oceanos causada por carbono em excesso derrete esqueletos dos corais, ameaçando grande parte dos recifes do mundo já em 2050, afirma estudo

Coral branqueado nas Maldivas em 2016 (Foto: The Ocean Agency/XL Catlin Seaview Survey)
Coral branqueado nas Maldivas em 2016 (Foto: The Ocean Agency/XL Catlin Seaview Survey)

DO OC – Oceanos mais ácidos vêm causando a perda do esqueleto de recifes de coral em uma intensidade dez vezes maior do que o ganho habitual de estrutura calcária. Esta é a conclusão de um estudo publicado nesta quinta-feira (22) pela revista científica Science. De acordo com os pesquisadores, essa “osteoporose” dos corais pode levar à dissolução líquida de parte dos recifes até 2050 – e seu possível colapso.

O grande vilão da descalcificação é o excesso de gases presentes na atmosfera. Cerca de 30% do gás carbônico emitido pela ação do homem vai parar no oceano, que misturado à água do mar forma o ácido carbônico, liberando íons de carbonato (CO32-) e hidrogênio (H+), tornando o oceano mais ácido. “A repercussão das mudanças climáticas no oceano são extremamente perigosas para os recifes de corais e podem dizimá-los em poucos anos”, disse Bradley D. Eyre, do Centro de Biogeoquímica Costeira, da Southern Cross University, na Austrália, um dos principais autores do estudo.

O trabalho monitorou a dissolução de carbonato de cálcio dos recifes a partir de cinco locais diferentes dos oceanos Atlântico e Pacífico. A dissolução foi medida usando 57 incubações a partir de equipamentos desenvolvidos para medições de parâmetros físico-químicos (câmaras bentônicas).

Os sedimentos de carbonato são formados por esqueletos de corais, algas calcárias e organismos como briozoários, equinodermos e foraminíferos.

Embora a dissolução tenha respondido de forma diferente em cada uma das regiões, o que se deve às diferenças nas propriedades dos sedimentos (como mineralogia, porosidade, permeabilidade, tamanho de grão e metabolismo, além de fatores como luz, profundidade e hidrodinâmica) todos os recifes de corais apresentaram perdas calcárias maiores do que ganhos.

Os carbonatos dos recifes do Havaí, por exemplo, estão entre os mais sensíveis e tendem a estar dissolvidos até o final do século. Os de Tetiaroa, atol formado por várias ilhotas de coral na Polinésia Francesa, caminham para a precipitação líquida (ou seja, ganham calcário), e os das Bermudas irão da precipitação líquida para a dissolução líquida até o fim do século. Segundo Ayre, outros componentes da comunidade de recifes de corais, como algas, também sensíveis à acidificação, podem acelerar a resposta negativa dos corais.

A concentração de gás carbônico aumentou 3,5 vezes mais nos recifes de corais do que no oceano aberto nos últimos 20 anos. Se acrescentarmos o branqueamento e a mortalidade de corais causados pela água mais quente, teremos a degradação ainda mais acelerada dos recifes de corais. “Ainda não se sabe se a dissolução líquida fará o recife inteiro erodir de forma catastrófica ou se a morte vai acontecer lentamente. De todo modo, é uma realidade que não gostaríamos de presenciar”, afirmou Ayre.

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