20 - março - 2018

Aquecimento atual já condenou geleiras a encolher em um terço

Novo estudo sugere que 36% da massa dos glaciares do planeta será perdida nas próximas décadas como resultado do carbono que já foi emitido; cada quilo de CO2 lançado hoje derrete 16 quilos de gelo em montanhas

Capitão Vilfredo Schurmann no glaciar Pio XI: há 17 anos, não era possível ver areia nem caminhar neste local (Foto: Expedição Oriente/Instagram)
Capitão Vilfredo Schurmann no glaciar Pio XI: há 17 anos, não era possível ver areia nem caminhar neste local (Foto: Expedição Oriente/Instagram)

DO OC – As geleiras da Terra sabem muito bem o que nós fizemos nos verões passados. Mesmo que o aquecimento global magicamente acabasse hoje e as temperaturas da Terra parassem de subir, milhares de rios de gelo em todo o planeta continuariam perdendo massa – e aumentando o nível do mar – pelos próximos 200 a 500 anos. A constatação é de um estudo publicado na última segunda-feira.

Quatro pesquisadores da Alemanha e da Áustria estimam que 36% do gelo dos glaciares dos Andes, dos Alpes, do Himalaia e de outras regiões montanhosas será perdido como resposta ao aquecimento de cerca de 1oC já verificado desde o início da era industrial. Mesmo que a humanidade consiga cumprir o Acordo de Paris e limitar o aquecimento no final desde século a 1,5oC ou 2oC, o destino dessa massa de gelo já estará selado. Ganharemos, só com isso, 11 centímetros a mais de nível do mar.

Para manter no lugar a quantidade de gelo que existe hoje nesses glaciares, seria necessário resfriar a Terra em 0,8oC, afirmam os pesquisadores liderados por Ben Marzeion, da Universidade de Bremen, na Alemanha.

Isso porque os glaciares de montanha estão em desequilíbrio com o clima atual. As temperaturas no último século e meio subiram mais rápido do que a capacidade de ajuste das massas de gelo. Se você pensar na fábula da lebre e da tartaruga, a atmosfera é como a lebre: esquenta rapidamente em relação ao tiro de largada da corrida – no caso, as emissões de gases de efeito estufa. O gelo é a tartaruga, que demora para ouvir o tiro e para começar a se mexer. Mas ele fatalmente chegará à linha de chegada.

Marzeion e colegas analisaram uma base de dados de geleiras que integra o GLIMS, um projeto internacional de sensoriamento remoto das massas de gelo da Terra, e usaram vários cenários de emissões de gases de efeito estufa para quantificar o desequilíbrio e o tamanho do ajuste.

Eles concluíram que, no curto prazo, não há nada a ser feito para salvar as geleiras de perder um terço de sua massa. No longo prazo, porém, o que evitarmos de emissões agora terá impacto no futuro: cada quilo de CO2 emitido hoje implica em 16 quilos de gelo derretido a mais. Se nada for feito para conter emissões, 14 centímetros de nível do mar adicional aos 11 cm inevitáveis serão perdidos até o final deste século, lembrando que o degelo continua além dele. Esse número é reduzido à metade no cenário mais ambicioso do Acordo de Paris, com a estabilização da temperatura em 1,5oC. Para dezenas de milhões de pessoas que dependem de geleiras para seu abastecimento de água, é uma tremenda diferença.

“Em grande parte, a futura perda de massa das geleiras precisa ser considerada inevitável, tornando obrigatória a identificação e execução de medidas de adaptação apropriadas”, escreveram os autores no estudo, publicado na revista Nature Climate Change. “No entanto, devido à natureza da sensibilidade dos glaciares à mudança da temperatura global, medidas de mitigação mais ambiciosas terão um impacto desproporcionalmente maior do que medidas menos ambiciosas.”

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