Área de cultivo de soja no Brasil pode diminuir 39% até 2040

19/04/2015

Outras culturas também correm risco de perder áreas de produção devido a mudanças no clima, indica estudo da Embrapa – See more at: http://observatoriodoclima.eco.br/area-de-cultivo-de-soja-no-brasil-pode-diminuir-39-ate-2040#sthash.PlIMMMxs.dpuf

CÍNTYA FEITOSA (OC)

Um estudo conduzido pela Embrapa a pedido da SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República) mostra que a área de cultivo de soja no Brasil pode ter perdas de até 39% em 2040 devido a mudanças no clima. A projeção se baseia em dois modelos climáticos usados pelo IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) e aponta para um aumento de ondas de calor e de extremos climáticos nos próximos anos. Com isso, além da temperatura, alteram-se os ciclos hidrológicos e algumas áreas de cultivo – hoje de baixo risco – passariam a ser consideradas de alto risco climático, impossibilitando investimentos. A possibilidade de aumento da deficiência hídrica também é maior.

Outras culturas podem ter perdas, como o feijão, arroz e milho safrinha – com possibilidade de redução de área cultivável de 26%, 24% e 28%, respectivamente. No caso da cana-de-açúcar, as áreas cultiváveis podem aumentar em 4%, por ser um gênero que precisa de calor, em especial para a produção de etanol. Porém, o cultivo deve migrar para regiões que hoje são mais frias. A produção de mandioca deve sair do Nordeste, muito seco, e migrar para áreas de cerrado e da Amazônia. O caupi, ou feijão-de-corda, já está migrando do Nordeste para o Centro-Oeste.

Para o pesquisador da Embrapa Eduardo Assad, à frente do estudo, o cenário é preocupante porque, além de perder área de plantação, os agricultores em áreas de alto risco climático perdem financiamento e subsídios para a produção. Segundo as regras do crédito agrícola no Brasil, para ter empréstimo para uma determinada cultura, o agricultor deve viver num lugar onde o risco de quebra de safra seja inferior a 20% (uma perda a cada cinco anos). No pior cenário de emissões modelado pela Embrapa, 99% da região Sul seria de alto risco para a soja em 2040.

“Estamos vivendo um momento difícil de eventos extremos muito sérios, que devem se agravar, e não é uma surpresa: trabalhamos com séries históricas e já vínhamos alertando sobre isso. A média de chuvas está mudando, e não é só em São Paulo”, afirma Assad.

Para tentar entender como as condições de cultivo poderão variar no país até 2040 e 2070 e no final do século, a Embrapa usou modelos climáticos regionalizados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Foram usados dois modelos adotados para fazer cenários do clima global pelo IPCC, o painel do clima das Nações Unidas. Esses modelos são grandes simulações da Terra, onde são incluídas variáveis como vento, oceanos e florestas. Alimentando-os com dados sobre a taxa de emissões de gases de efeito estufa, eles conseguem estimar como o clima vai variar nas próximas décadas ou séculos.

Os modelos do IPCC têm a vantagem de enxergar o planeta inteiro, porém são “míopes”: eles dividem o mundo em células de 200 km x 200 km, grandes demais para permitir investigar variações climáticas dentro de uma região geográfica menor ou um país. O que o Inpe fez foi usar dois desses modelos e aumentar sua resolução para 20 km x 20 km, dando um zoom na América do Sul. Isso permitiu montar pela primeira vez cenários detalhados de chuva e temperatura para as próximas décadas no Brasil.

Dois modelos foram utilizados: o britânico HadGEM-2 e o japonês Miroc-5. Por uma questão de personalidade matemática, por assim dizer, ambos “enxergam” o clima no futuro de jeitos diferentes: o britânico tende a apontar um mundo mais seco no futuro, enquanto o japonês vê um mundo mais chuvoso. O IPCC usa mais de 20 modelos, então consegue fazer uma média realista das projeções climáticas descontando os extremos de cada um.

O estudo encomendado pela SAE, o Brasil 2040, analisou os extremos do espectro de modelos do IPCC. Em cada um foram feitas simulações considerando três cenários de emissão (chamados de RCP no jargão dos cientistas): 2.6, considerado irrealista, por usar níveis de emissão atuais e assumir que a humanidade vai parar de emitir carbono hoje; 4.5, que considera que alguma política de corte de emissões será implantada; e 8.5, que considera que pouca coisa será feita para cortar emissões.

Assad considera que só será possível adaptar-se ao novo cenário (chuvas irregulares, secas duradouras e verões quentes) se a discussão sobre o tema for integrada, com políticas públicas que levem em consideração o debate científico. “Não podemos colocar o debate em caixinhas. Nós estamos apresentando propostas e esperamos que o componente político reaja com rapidez.”

O Plano ABC é apontado por Assad como uma boa política pública na área, mas não o bastante para a adaptação ao cenário de mudança climática. “Temos soluções, como mudar o sistema de monocultura e investir em pesquisas para grãos adaptados. Mas isso demora. Se mantivermos a cultura da inação, vamos perder produção e ter severos prejuízos econômicos.”

De acordo com Kátia Marzall, chefe de serviços da Coordenação de Manejo Sustentável de Sistemas Produtivos do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), as políticas de adaptação estão em constante revisão, para que a capacidade de produção seja mantida. “As projeções apontam condições futuras – que podem ou não se concretizar. É importante que o setor produtivo tenha a informação necessária dentro do prazo adequado para tomar decisões sobre o direcionamento de seu sistema produtivo.”

Marzall afirma que a gestão de recursos hídricos, por exemplo, é uma das prioridades do Mapa e que, no atual cenário de crise, a equipe foi reforçada. “Para o setor agropecuário, é importante uma distribuição adequada da precipitação ao longo do ciclo produtivo. Apenas 5% da área produtiva é irrigada. Isso significa que a grande parte da área produtiva depende de um regime de chuvas adequado para manter sua capacidade produtiva.”

A pasta tem acompanhado o estudo da SAE, com a participação de representantes das secretarias de desenvolvimento agropecuário e políticas agrícolas, para avaliar os resultados, sua pertinência e suas lacunas. Algumas das apresentações de pesquisadores para o projeto Adaptação à Mudança do Clima da SAE estão disponíveis online.

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