Caça de animais grandes pode fazer floresta perder carbono

21/12/2015

Biólogos brasileiros mostram que extinção local de grandes herbívoros corta dispersão de sementes
de árvores de madeira dura e causa perda de até 11 toneladas de CO2 por hectare

Muriqui-do-norte, espécie crítica para dispersão de sementes na Mata Atlântica (Foto: Peter Schoen/Flickr)
Muriqui-do-norte, espécie crítica para dispersão de sementes na Mata Atlântica (Foto: Peter Schoen/Flickr)

(DO OC)

O que a caça indiscriminada nas florestas brasileiras tem a ver com o aquecimento global? Para um grupo de biólogos do Brasil e do Reino Unido, tudo. Eles mostraram que a eliminação de espécies como antas, queixadas e tucanos por caçadores modifica a composição das selvas tropicais, eliminando também as árvores de madeira dura, que têm mais capacidade de sequestrar carbono.

O grupo liderado pelo biólogo paulista Mauro Galetti, da Unesp de Rio Claro, e pelo paraense Carlos Peres, da Universidade de East Anglia, viu perdas de até 3 toneladas de carbono por hectare (cerca de 11 toneladas de CO2) em fragmentos de floresta desprovidos de grandes herbívoros na Mata Atlântica. O estudo analisou 31 fragmentos de mata com mais de mil hectares espalhados por todo o bioma, e simulou em computador a perda progressiva de fauna em cada um deles.

Nessas regiões, o efeito combinado da caça e do tráfico de animais junta-se ao da própria fragmentação florestal para extinguir localmente os grandes herbívoros. O resultado é que, mesmo sem desmatamento, essas florestas emitem CO2 por perda de árvores de madeira nobre. Nenhum dos cenários mostrou uma redução significativa do número de árvores, mas as espécies que permanecem ali são, em geral, árvores de madeira mole e crescimento rápido, com menor capacidade de retirar carbono da atmosfera e estocá-lo em tronco, raízes e galhos.

Segundo o grupo, o efeito ocorre por uma questão de tamanho. Em geral, as árvores de madeira mais densa têm sementes maiores, de mais de 12 milímetros de diâmetro. Essa dimensão é uma espécie de número mágico para a dispersão por herbívoros: sementes menores do que isso são engolidas e dispersadas por passarinhos e morcegos, que não são alvo de caçadores. Sementes maiores dependem de animais de boca maior, como antas, muriquis e tucanos.

Os pesquisadores analisaram mais de 100 mil árvores de 813 espécies para encontrar a relação entre biomassa, dispersão e tamanho de semente. Descobriram que as árvores de sementes grandes perfaziam 21% da amostra – deste total, 70% eram espécies com alta capacidade de retenção de carbono.

“Embora as políticas intergovernamentais para reduzir emissões de carbono e os programas de reflorestamento tenham até o momento enfocado mais o desmatamento, nossos resultados demonstram que a defaunação, e a perda de interações ecológicas fundamentais, também representam um sério risco à manutenção dos estoques de carbono das florestas tropicais”, escreveram os autores.

Segundo eles, a defaunação (como é chamado o esvaziamento da fauna de uma floresta) é uma “ameaça não reconhecida” ao carbono florestal, e políticas como o Redd+ (redução de emissões por desmatamento e degradação florestal), que integra o recém-fechado acordo do clima de Paris, deveriam incluir esse fator de degradação.

O estudo foi publicado no periódico de acesso aberto Science Advances.