Calor na Antártida causou frio em São Paulo

16/02/2017

Massa de ar que fez termômetros despencarem na cidade e no Sul do país no outono passado está relacionada a mudanças no continente austral provocadas pelo aquecimento da Terra, diz cientista

Pinguins-de-adélia na Antártida (Foto: Michelle LaRue/Universidade de Minnesota)
Pinguins-de-adélia na Antártida (Foto: Michelle LaRue/Universidade de Minnesota)

CLAUDIO ANGELO
DO OC

“Cadê esse aquecimento global quando a gente precisa dele?”

Muita gente se fez essa pergunta em junho do ano passado, enquanto os moradores de São Paulo e toda a região Sul batiam os dentes com temperaturas próximas de zero ou abaixo disso, numa surreal onda de frio em pleno outono do ano mais quente da história.

O aquecimento global estava lá o tempo todo. Mas os paulistanos, curitibanos e portalegrenses precisariam ter olhado mais para baixo para encontrá-lo. Mais precisamente para a Antártida.

Um pesquisador da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) encontrou evidências de que a massa de ar frio que fez o termômetro despencar no sul do Brasil no outono tem ligação direta com mudanças no padrão de ventos do continente austral, facilitadas pelo aquecimento da Terra.

O norte da Antártida, por sua vez, estava anormalmente quente: enquanto as médias no norte da Argentina e no Rio Grande do Sul estavam 3oC mais baixas do que o normal no outono, a Península Antártica amargava médias de 3oC mais elevadas. “Em alguns lugares da Península houve temperaturas 4oC acima da média”, diz Francisco Eliseu Aquino, chefe do Departamento de Geografia da UFRGS (abaixo, um mapa mostrando o contraste de temperaturas no norte antártico e no sul da América do Sul).

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Uma análise da dados climatológicos feita pelo cientista e publicada no boletim da Cirm (Comissão Interministerial para os Recursos do Mar), que gerencia o Programa Antártico Brasileiro, mostrou que a onda de frio paulistana foi causada por uma massa de ar vinda do “lugar errado” da Antártida. Esta, por sua vez, se encaixa perfeitamente no tipo de alteração que se esperaria ver no caso de uma Antártida afetada pelo aquecimento global – que, em 2016, foi agravado pelo El Niño extremo.

O sul da América do Sul e a Antártida estão conectados por uma complexa circulação atmosférica, que só recentemente começou a ser desvendada pelos cientistas. Trata-se de um balé executado por ventos que sopram em altas altitudes, onde a América do Sul frequentemente “exporta” calor para a Antártida e recebe, em troca, pacotes de frio intenso.

Aquino já havia mostrado, em 2012, que mudanças climáticas na Antártida estão deixando o clima do Rio Grande do Sul mais variável, com mais extremos de frio e calor. Isso acontece por causa do efeito combinado de dois fenômenos causados pelo homem: o aquecimento global, que deixa a região tropical mais quente, e o buraco na camada de ozônio, que deixa o interior da Antártida mais frio.

Somados, esses dois fatores aumentam a diferença de pressão do ar entre trópico e polo, fenômeno conhecido como “SAM positivo” (SAM é a sigla em inglês para “modo anular do hemisfério Sul”). O SAM pode ser entendido como um imenso escorregador, por onde o ar trafega entre a região tropical e a polar.

Os cientistas chamam de SAM positivo as fases mais íngremes desse escorregador. Quando isso ocorre, cresce a velocidade dos ventos que sopram constantemente de oeste para leste ao redor do continente austral. Isso, por sua vez, bagunça a formação das massas de ar frio que a Antártida exporta para o continente sul-americano: em vez de se formarem no setor oeste do Oceano Austral e na Península, elas se formam no mar de Weddell, um dos lugares mais gelados do planeta (no mapa acima), o que lhes dá mais potência.

Mapeando a origem da massa fria de junho, Aquino detectou a impressão digital da circulação alterada do mar de Weddell. “Os dois anos mais quentes da história foram 2015 e 2016. Além disso, com o El Niño, toda a atmosfera ficou muito quente, especialmente na região tropical. O efeito foi como um SAM positivo”, disse o climatologista gaúcho ao OC.

“Não é que isso não tenha ocorrido no passado, mas bate muito bem com [as anomalias do] presente”, afirmou. Com o aquecimento progressivo da Terra, o escorregador atmosférico tende a ficar ainda mais íngreme no futuro. “É uma amostra de como as coisas estão fora de padrão.”