11 - maio - 2018

Calor recorde no oceano causou furacão Harvey, mostra estudo

Em análise inédita, climatólogos mostram que energia extraída do mar pela supertempestade foi a mesma despejada no Texas em forma de chuva

Furacão Harvey chega ao Texas, em imagem de satélite da Nasa
Furacão Harvey chega ao Texas, em imagem de satélite da Nasa

DO OC – Pesquisadores dos Estados Unidos e da China estabeleceram uma conexão direta entre o superfuracão Harvey, que despejou o maior volume de chuva já visto na história dos EUA, e o aquecimento recorde da água do Golfo do México em agosto de 2017, quando a tormenta tocou terra.

Em análise inédida publicada nesta quinta-feira (10), os cientistas mediram o calor acumulado na superfície do mar antes e depois de Harvey. E descobriram que a energia que ele sugou das águas do golfo foi equivalente à despejada em forma de chuva sobre o Estado americano do Texas.

Harvey foi o primeiro superfuracão da temporada de 2017, a mais intensa de que se tem registro no Caribe em toda a história, com dez furacões. Em 24 de agosto ele se transformou em um furacão de categoria 4, que ficou dias estacionado sobre o Texas e lançou 1.500 milímetros de chuva sobre algumas regiões do Estado em menos de uma semana (para comparação, na cidade de São Paulo chove 1.600 milímetros em um ano).

Como a tempestade ocorreu isolada – não havia nenhum outro ciclone na região quando ele se formou –, foi possível obter dados de “antes e depois” e saber como esse monstro mudou o balanço energético de todo o Caribe.

Furacões tiram seu “combustível” da água quente do mar nos trópicos. O ar úmido com a água evaporada forma as nuvens de tempestade que compõem o ciclone tropical. Quanto mais quente a água, maior o poder de um furacão. Daí os cientistas acharem que o aquecimento global está aumentando a intensidade dessas tormentas. Em média, no planeta, a temperatura da superfície do oceano já esquentou 0,6oC, com um aumento de umidade do ar correspondente da ordem de 5% a 15%. O calor contido no oceano, que causa a evaporação, triplicou no planeta desde os anos 1980. Segundo o estudo de Trenberth e colegas, publicado no periódico Earth’s Future, essa tendência é “indubitavelmente” causada pelo aquecimento global.

Para que um ciclone se forme, é preciso que a temperatura da água seja igual ou superior a 26oC. Em agosto de 2017, antes de Harvey nascer, a água do Golfo estava a 30oC, e o teor de calor nos primeiros 160 metros da superfície oceânica era o mais alto da história, afirmam Kevin Trenberth, da Universidade do Colorado, e colegas.

Essa quantidade de combustível foi o que tornou Harvey tão grande. E também explica por que ele não perdeu força imediatamente após atingir o continente, como acontece normalmente com furacões: uma parte do ciclone continuou sobre o mar, sugando vapor da água e despejando-o sobre o Texas, como se fosse uma enorme mangueira.

Uma das coisas que os furacões fazem é resfriar o oceano, já que tragam a água mais quente da superfície e permitem que a água mais fria suba à superfície. As medições antes e depois mostram que Harvey também fez isso. Só que o oceano estava tão quente no verão boreal do ano passado que a temperatura da água após a passagem do furacão permaneceu ainda muito quente, a 28,5oC. Isso deu combustível de sobra para os dois furacões de categoria 5 que se sucederam a Harvey, Irma e Maria, que causaram ampla devastação na Flórida e no Caribe.

“O Harvey não poderia ter produzido tanta chuva na ausência de mudança climática induzida pelos humanos” escreveram os autores.

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