Cortar CO2 é ‘oportunidade do século’ em saúde, afirma revista médica

23/06/2015

Em edição especial do periódico médico The Lancet, estudo sugere que profissionais de saúde liderem o enfrentamento das mudanças climáticas para resultados efetivos

Passeio ciclístico "Pedalando Rumo à Rio+20", em 2012, promovido pela ONG Rodas da Paz, em Brasília. Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil
Passeio ciclístico "Pedalando Rumo à Rio+20", em 2012, promovido pela ONG Rodas da Paz, em Brasília. Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil

CÍNTYA FEITOSA (OC)

As consequências das mudanças climáticas sobre a saúde estão sendo subestimadas e os últimos 50 anos de avanços da medicina estão ameaçados. A conclusão é de um estudo publicado nesta terça-feira no periódico The Lancet, uma das principais revistas médicas do mundo. Isto porque, de acordo com os pesquisadores, com uma população de 9 bilhões em 2050, os problemas causados pelas alterações no clima podem ser drásticos, com grandes perdas econômicas e em saúde.

“A mudança climática tem o potencial de reverter os ganhos em saúde a partir de desenvolvimento econômico nas últimas décadas – e não apenas pelos efeitos diretos sobre a saúde, mas por meios indiretos, como o aumento da migração e instabilidade social”, diz Anthony Costello, diretor do Instituto de Saúde Global da UCL (University College London) e membro da equipe de pesquisadores. “No entanto, nossa análise mostra claramente que, ao combater as mudanças climáticas, também é possível beneficiar a saúde”, afirma Costello.

Os efeitos diretos incluem aumento das ondas de calor, inundações, secas e aumento frequência de tempestades intensas. Indiretamente, a saúde humana seria afetada por mudanças na qualidade do ar e da água, propagação de vetores de doenças, insegurança alimentar e subnutrição e até problemas de saúde mental.

A maioria dos impactos do clima na saúde são processos complexos, que frequentemente se retroalimentam e cujo impacto é difícil de ser absorvido pela sociedade. Por exemplo, aumento de temperaturas e mudanças nos padrões de precipitação podem alterar a proliferação de vetores de doenças, como mosquitos transmissores da dengue ou da malária. Ondas extremas de calor podem afetar a produtividade e aumentar a procura por hospitais, além de agravar doenças cardiovasculares.

Para os pesquisadores, combater as mudanças climáticas pode ser a maior oportunidade em saúde deste século. Eles sugerem que profissionais de saúde liderem a resposta às ameaças das mudanças climáticas. “Os profissionais de saúde têm trabalhado para proteger contra ameaças para a saúde, como o tabaco, o HIV e poliomielite, muitas vezes confrontando poderosos interesses”, diz o artigo.

De acordo com os pesquisadores, a perspectiva de saúde pública tem o potencial de envolver toda a sociedade em uma causa. Além disso, justificam os autores do estudo, esses conceitos são muito mais tangíveis do que toneladas de CO2 na atmosfera, e são entendidos e priorizados em todas as populações, independentemente da cultura ou estado de desenvolvimento.

Alguns dos benefícios apontados pela pesquisa em uma economia de baixo carbono são a redução da poluição do ar e doenças respiratórias. O chamado “transporte ativo” – como caminhadas e uso da bicicleta – também poderia diminuir o tráfego e o número de acidentes de trânsito, além da redução de taxas de obesidade, diabetes, doença cardíaca coronariana e acidente vascular cerebral.

“A mudança climática é uma emergência médica”, afirma Hugh Montgomery, da UCL. “Portanto, exige uma resposta emergencial, utilizando as tecnologias disponíveis no momento. Sob tais circunstâncias, nenhum médico iria considerar uma série anual de discussões de casos e metas adequadas, mas é exatamente assim que ocorre a resposta global à mudança climática.”

IPCC da saúde

O grupo de pesquisadores aponta linhas gerais de atuação dos governos em todo o mundo para enfrentar as mudanças climáticas e propõe a formação de um novo órgão global sobre mudança climática e saúde para monitorar e relatar a cada dois anos impactos das mudanças climáticas na saúde, além do progresso nas políticas de mitigação e sua interação com a saúde.

Entre as medidas sugeridas para os próximos cinco anos estão investimentos em pesquisa em saúde pública, monitoramento e vigilância para assegurar uma melhor compreensão das necessidades de adaptação e os benefícios à saúde na adoção de medidas de mitigação e adaptação; ampliação de financiamento aos países em desenvolvimento, inclusive nos sistemas de saúde; transição para energias renováveis, abrindo mão de fontes poluentes, como o carvão; incentivos para cidades que promovem estilos de vida saudáveis para a população e para o planeta, como políticas de eficiência energética, facilidade no transporte ativo e acesso a espaços verdes. O estudo defende que a adoção dessas políticas reduziria a pressão sobre os sistemas de saúde, permitindo mais investimentos no setor.

No campo político e econômico, as sugestões são estabelecer um mecanismo internacional de precificação do carbono, expandir o acesso à energia renovável, facilitar a colaboração entre ministérios da Saúde para o desenvolvimento de estratégias em saúde e clima e, por fim, estabelecer um acordo internacional ambicioso.