27 - novembro - 2018

Corte de emissões de carbono precisa triplicar, alerta ONU

Relatório sobre situação da luta contra a mudança do clima aponta que mundo aquecerá 3ºC caso metas dos países não sejam ampliadas

Moradores evacuam Malibu, na Califórnia, durante incêndio em novembro de 2018 (Foto: Wikipedia)
Moradores evacuam Malibu, na Califórnia, durante incêndio em novembro de 2018 (Foto: Wikipedia)

DO OC – O mundo precisa triplicar a velocidade de redução de emissões de gases de efeito estufa até 2030 se quiser evitar que o aquecimento global ultrapasse o limite de menos de 2oC definido no Acordo de Paris. Caso se pretenda ficar na temperatura mais segura de 1,5oC, o esforço terá de ser cinco vezes maior que o atual. As conclusões são de um relatório lançado nesta quarta-feira (27) pelas Nações Unidas.

O Emissions Gap Report, da ONU Meio Ambiente, é publicado todo fim de ano e mostra o abismo que separa nossas políticas de corte de emissões do que é necessário fazer para resolver a crise do clima. A edição de 2018 afirma que, em vez de diminuir progressivamente, esse abismo cresceu. Mesmo com as metas do Acordo de Paris sendo cumpridas, estamos no rumo de um aquecimento de 3oC no fim deste século.

Na edição de 2017, o relatório estimava que nós deveríamos chegar a 2030 emitindo no máximo 42 bilhões de toneladas de CO2 equivalente (em 2016, o mundo emitiu 51,9 bilhões). Cumprindo com régua e compasso todas as NDCs, as metas nacionais do Acordo de Paris, chegaríamos naquele ano na melhor das hipóteses a um nível de emissão 11 bilhões de toneladas maior do que o necessário. Isso equivale às emissões de “dois Estados Unidos”.

Neste ano, o buraco é mais em cima: as emissões de gases de efeito estufa voltaram a crescer em 2017 após três anos de estagnação, o que sugere que as políticas adotadas hoje pelos países para combater o aquecimento global não estão fazendo nem cócegas. O mundo emitiu no ano passado 53,5 bilhões de toneladas de CO2 equivalente. Isso indica que o esperado descolamento entre o crescimento econômico e as emissões de carbono, que se imaginava estar acontecendo entre 2014 e 2016, ainda não ocorreu.

Além disso, por conta de novos cálculos feitos pelo IPCC, o painel do clima da ONU, o limite de emissões em 2030 para nos mantermos na meta, especialmente a de 1,5oC, também foi reduzido. Como resultado, o hiato de ambição para 2oC cresceu de 11 bilhões para 13 bilhões de toneladas de CO2, no melhor cenário, e de 13 bilhões para 15 bilhões no pior (caso somente as NDCs não condicionadas, ou seja, que independem de ajuda financeira, externa sejam cumpridas).

Para 1,5oC, o hiato de ambição em 2030 quase dobrou: ele era de 16 bilhões de toneladas (melhor cenário) a 19 bilhões de toneladas no relatório do ano passado. Por conta dos novos achados do IPCC, saltou para 29 bilhões de toneladas (no melhor cenário ) para 32 bilhões de toneladas caso as NDCs sejam cumpridas apenas em sua parte não condicionada. A ONU Meio Ambiente considera que, se o nível de ambição das NDCs não for revisado para cima até 2030, a estabilização do clima em 1,5oC é carta fora do baralho.

A chance de 2oC ainda não está perdida, mas, segundo o relatório, “se o hiato de emissões não for fechado até 2030, é muito plausível que o objetivo de um aumento de temperatura bem menor que 2oC também fique fora de alcance”.

Tecnicamente, triplicar a velocidade de redução de emissões é viável. Segundo o relatório, uma combinação adequada de preço sobre as emissões de carbono (na casa de US$ 100 por tonelada) e tecnologias de redução de emissões poderia reduzir em 33 bilhões a 38 bilhões de toneladas de CO2 equivalente as emissões do mundo em 2030 (elas seriam de 59 bilhões de toneladas na ausência de medidas). O potencial de corte por parte de atores não-nacionais, como Estados, cidades e corporações, é de 19 bilhões de toneladas. Ou seja, no papel, dá para fechar o abismo e sobra.

A porca torce o rabo é na hora de traduzir esse potencial técnico na tal “vontade política”. Daqui a cinco dias, governos de 196 países terão mais uma chance de fazer isso, na conferência do clima de Katowice, Polônia, a COP24. Tudo indica que perderão a oportunidade de novo.

Na COP24 deverá ser fechado o “manual de instruções” do Acordo de Paris, um conjunto de regras sobre como os países deverão implementar as metas do tratado e verificar seu cumprimento a partir de 2020. Um ponto crítico das conversas será o aumento da ambição. Quando Paris foi assinado, já se sabia que as NDCs eram insuficientes, portanto ficou acertado que de tempos em tempos as nações se reuniriam para verificar a ambição coletiva e propor ajustes. A primeira dessas reuniões está marcada para 2023. Neste ano acontece o chamado Diálogo Talanoa, um bate-papo mais ou menos informal sobre a necessidade de ajuste.

Ocorre que apenas dois países do mundo, o Brasil e os EUA, definiram metas de cinco anos (para 2025). Todos os outros, inclusive a União Europeia, a Índia e a China, que estão entre os cinco maiores poluidores, têm metas para 2030. Os cientistas vêm defendendo que já no Diálogo Talanoa seja proposta a revisão das metas. Segundo Thelma Krug, vice-presidente do IPCC, esperar até 2023 para isso será tarde demais.

O problema, segundo diplomatas ouvidos pelo OC, é que não há o menor clima para falar de aumento de ambição na COP24. A conferência é presidida pela Polônia, país carvoeiro que tenta sempre puxar a ambição da União Europeia para baixo. E governos que negam a mudança climática andam chegando ao poder em países que são grandes emissores. O mais recente é o Brasil, cujo presidente eleito, Jair Bolsonaro, já ameaçou sair de Paris, seguindo o exemplo de Donald Trump, nos EUA. O chanceler nomeado por Bolsonaro, Ernesto Araújo, acha que o aquecimento global é parte de uma conspiração para dar poder à China.

Neste contexto, a própria diplomacia brasileira desistiu de pressionar na COP24 pela adoção de metas de cinco anos para todos os países, como vinha propondo – o que facilitaria revisões nas NDCs. O Diálogo Talanoa tende a produzir poucos resultados concretos e os negociadores tendem a manter suas asinhas recolhidas até que o clima entre as lideranças mundiais melhore.

O problema é que o outro clima, aquele que nos afeta todos os dias, só faz piorar, como mostraram os incêndios catastróficos na Califórnia, o deslizamento em Niterói, os recordes mundiais de calor batidos no primeiro semestre no hemisfério Norte e as inundações no Japão. Ano que vem, um El Niño fora de época se anuncia. Prepare o ar-condicionado, se puder. A maior parte da humanidade não pode. (CLAUDIO ANGELO)

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