Diesel matou 38 mil em 2015, diz estudo

Cientistas analisaram efeitos de subprodutos tóxicos da queima do combustível sobre mortes precoces em 11 países, inclusive o Brasil, cujo Congresso quer liberá-lo para carros de passeio

Carros em congestionamentos liberam uma grande quantidade de poluentes. Estudo revela a diferença exorbitante entre as emissões reais dos veículos a diesel e as permitidas por lei. Foto: divulgação
Carros em congestionamentos liberam uma grande quantidade de poluentes. Estudo revela a diferença exorbitante entre as emissões reais dos veículos a diesel e as permitidas por lei. Foto: divulgação

LUCIANA VICÁRIA
DO OC

Óleo diesel mata, e um estudo publicado nesta segunda-feira calculou quanto: 38 mil mortes precoces tiveram relação com a queima desse combustível fóssil em 2015. As estimativas consideraram apenas os 11 países que mais consomem diesel no mundo, o que inclui o Brasil, e que juntos são responsáveis por 80% das emissões.

O estudo, publicado no periódico Nature, constatou algo de que já se desconfiava: a diferença enorme que existe entre as emissões registradas em testes de certificação de carros, ônibus e caminhões e nas emissões reais monitoradas por órgãos de controle da poluição.

Significa dizer que a combustão dos veículos a diesel libera uma quantidade muito maior de gases do que o previsto pelo fabricante ou registrado pela avaliação do agente de controle. Para dar uma ideia do que isso significa, foram 4,6 milhões de toneladas de óxidos de nitrogênio (NOx) além do limite estabelecido pelos órgãos reguladores em 2015 nesses 11 países, um valor 45% acima dos limites previstos.

Mas por que isso acontece? As fraudes, como a da montadora alemã Volkswagen, que equipou 11 milhões de carros com um dispositivo que controla a liberação de gases apenas quando o carro passa por testes oficiais de emissões, explicam apenas uma parte dessa questão. A outra parte se deve à tecnologia de controle das emissões, que está em evolução. Na Europa, veículos leves liberam sete vezes mais poluentes do que informam seus certificados de emissões, de acordo com o pesquisador Joshua Miller, do ICCT, o Conselho Internacional do Transporte Limpo, um dos autores do estudo.

A boa notícia é que novas tecnologias já podem atenuar a diferença entre teoria e prática. A sexta fase do programa de controle de emissões, o Euro 6/VI, como é chamado, permite aos fabricantes ajustar seus propulsores a uma condição de testes mais próxima da realidade. O Brasil ainda está na tecnologia anterior, o Euro V, mas caminha nesta direção, ainda que com atraso.

A situação do diesel no Brasil é melhor do que na Europa. O uso de motores a diesel em veículos leves é proibido pela lei brasileira, sendo utilizado apenas em caminhões, ônibus e veículos de tração 4×4 (que incluem as picapes médias, SUVs e crossovers). Mas esta diretriz está na berlinda, com o projeto de lei 1013/2011, do deputado Áureo (SD-RJ) que propõe liberar a fabricação e comercialização de veículos automotores leves movidos a óleo diesel em todo o território nacional.

projeto de lei  já foi rejeitado pelas comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio. Mesmo assim, foi tema de debate na Comissão Especial sobre Motores a Diesel para Veículos Leves e poderá seguir para o Senado sem passar por votação plenária. O retrocesso para a saúde, a economia e para o meio ambiente mobilizou a sociedade civil a escrever um  manifesto enviado ao Congresso há quase um ano, que reforça os perigos de liberar a produção de veículos leves movidos a diesel no país.

De acordo com o pesquisador Cristiano Façanha, do ICCT, um dos revisores do estudo, caso o diesel seja liberado e amplamente comercializado entre os veículos leves no Brasil, estima-se que cerca de 150 mil pessoas possam morrer de doenças relacionadas a estes poluentes nos próximos 30 anos. “O efeito para a saúde da população seria devastador”, disse. Do ponto de vista econômico, a adoção do diesel teria, ainda, efeito negativo nas tarifas de ônibus e no frete de mercadorias. “O aumento da demanda exerceria uma pressão maior no transporte público e no transporte de carga, veículos que funcionam, em sua maioria, à base de diesel”, disse. Sob o viés ambiental, o país passaria a emitir mais gases de efeito estufa – e o etanol perderia espaço para o diesel, um combustível fóssil altamente poluente.

Mas qual o perigo da queima do diesel para a população? A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos alerta para os riscos da exposição prolongada aos vapores do óleo diesel, relacionados ao câncer de pulmão, doenças do sistema respiratório e cardíaco. Os motores a diesel, no processo de combustão, emitem gases à base de nitrogênio e materiais particulados que podem se transformar em um composto perigoso chamado ozônio, facilmente inalado.

Para a atmosfera, o diesel é altamente danoso. Sua queima gera altas emissões de gases nocivos à saúde humana como óxidos de nitrogênio e material particulado. A concentração de enxofre liberado na combustão pode gerar o ácido sulfúrico (H2SO4), que contribui consideravelmente para a formação da chuva ácida, podendo acidificar o solo e a água, além de contribuir com o aquecimento global e as mudanças climáticas.

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