30 - junho - 2015

Dilma frustra apelo por ambição no clima em anúncio com os Estados Unidos

Compromissos assumidos em declaração conjunta da presidente com Barack Obama são insuficientes
para atender às recomendações científicas e políticas no combate às mudanças climáticas

Dilma e Obama se atrasam em firmar compromisso por acordo ambicioso em Paris. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
Dilma e Obama se atrasam em firmar compromisso por acordo ambicioso em Paris. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

O Observatório do Clima, rede que reúne 37 organizações da sociedade civil, saúda o compromisso assumido pelos presidentes Dilma Rousseff e Barack Obama em trabalhar juntos para garantir um acordo ambicioso e equilibrado na conferência do clima Paris. Na verdade, a demonstração de liderança por dois dos sete maiores emissores mundiais de gases do efeito estufa chega atrasada. Tanto a ciência quanto a economia das mudanças climáticas são claros sobre o esforço de redução de emissões que precisa ser feito para haver uma chance maior que 50% de manter o aquecimento global abaixo do limite acordado de 2°C, e os custos insustentáveis ​​de atrasar a ação.

A ciência também é clara sobre a insuficiência das reduções de emissões de 26% a 28% até 2025 a partir dos níveis de 2005 propostas pelos Estados Unidos em sua INDC (Contribuição Nacionalmente Determinada Pretendida) para o acordo de Paris.

O Brasil ainda não divulgou suas metas para Paris, mas o Observatório do Clima se antecipou e apresentou a barra de ambição esperada: nós acreditamos que o Brasil deve estabelecer um limite máximo de 1 gigatonelada de CO2 equivalente em 2030. As metas anunciadas hoje pela presidente Dilma não nos colocam sequer perto da ambição real.

“Declarar que o Brasil vai ‘buscar’ políticas para eliminar o desmatamento ilegal é ridículo. O que o governo está dizendo com isso é que aceita conviver com o crime por sabe-se lá quanto tempo. Isso é uma ofensa ao bom senso e ao que o Brasil já mostrou que pode fazer no controle do desmatamento”, disse Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima. “É preciso lembrar que todos os outros países tropicais já se comprometeram a zerar o desmatamento em 2030”, acrescentou.

“A meta de restaurar 12 milhões de hectares em florestas é um bom começo, especialmente para um país cuja maior cidade sofre falta d’água em parte causada pelo desmatamento. No entanto, o passivo a restaurar é duas vezes maior do que isso”, disse Rittl.

As metas anunciadas para energia – atingir 28% a 33% de renováveis na matriz em 2030, excluindo hidrelétricas – tampouco têm o nível de ambição necessário. “Atualmente os renováveis excluindo as hidrelétricas já respondem por 28% da matriz energética. De acordo com as projeções do Plano Decenal de Energia, teremos 29% em 2023. Portanto, a meta anunciada não representa uma modificação importante da matriz”, disse André Ferreira, diretor-presidente do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema). “Considerando que a demanda por energia deve crescer em torno de 70% nos próximos 15 anos, é de esperar que as emissões no setor de energia cheguem a cerca de 800 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2030. Acreditamos que elas possam ser limitadas a 617 milhões de toneladas”, disse.

“A proposta de expandir a fatia de renováveis não-hidrelétricas a 20% da geração de eletricidade significa manter as coisas como estão. Nós já demonstramos que o Brasil pode fazer o dobro disso”, disse Ricardo Baitelo, coordenador de Clima e Energia do Greenpeace Brasil. “A presidente também dá sinais preocupantes de que o Brasil ressuscitará seu programa de energia nuclear, que a própria Dilma havia descartado em 2011 por questões de segurança.”

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