09 - outubro - 2018

Frear aquecimento em 1,5°C requer corte de 45% nas emissões em 12 anos

Manutenção de objetivo em 2,0°C implicaria aumento severo nas consequências das mudança climática, diz IPCC

Cientistas apresentam relatório especial do IPCC em Incheon, Coreia do Sul. (Foto: WWF)
Cientistas apresentam relatório especial do IPCC em Incheon, Coreia do Sul. (Foto: WWF)

Um objetivo de cortes de emissões de gases de efeito estufa com ambição o suficiente para que a Terra se aqueça no máximo 1,5°C é um esforço que vale a pena, quando comparado com um limite de 2,0°C. Essa é a conclusão do novo relatório especial do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática). Para que isso seja possível, porém, uma ação drástica de mitigação precisa ser tomada “muito antes de 2030″, afirmam os cientistas.

O novo documento do painel do clima da ONU foi projetado especificamente para tratar dessa questão, já que a linha de “perigo climático” considerada dentro do âmbito do Acordo de Paris para combate à mudança climática é de 2,0°C acima dos níveis medidos antes da Revolução Industrial. Três anos atrás, porém, a ciência já dava muitos indícios de que esse limite talvez fosse otimista demais, e o relatório que o IPCC divulga agora compara os desafios e benefícios de mudar a meta para 1,5°C.

Não chegou a ser uma surpresa para os cientistas que tanto os desafios quanto os benefícios são muito maiores. Agora, porém, existe uma medida bem quantificada sobre essa diferença.

Essencialmente, impedir um aquecimento maior que 1,5°C requer que um corte global de emissões de 45% em 2030, em relação às emissões medidas em 2010 (linha de base do Acordo de Paris) e chegue a zero em 2050. O objetivo menos ambicioso, de 2,0°C, requer um corte de 20% em 2030, e emissões zero em 2075.

Considerando-se que temos 12 anos até 2030, não se trata de um desafio trivial, sobretudo levando em conta que o planeta já é hoje 1,0°C mais quente do que na era pré-industrial. Mas os benefícios de frear essa subida em 1,5°C compensariam o esforço. Em outras palavras: meio grau faz diferença, sim, e muita.

Para atingir um grande nível de robustez em suas conclusões, o IPCC reuniu 91 cientistas na produção do novo relatório, que cita mais de 6.000 estudos, vários deles encomendados especialmente para o painel da ONU. O grupo bateu o martelo sobre a versão final do relatório na última sexta-feira (5), em Incheon, na Coréia do Sul.

Benefícios e desafios
A média de aumento do nível do mar, por exemplo, tenderia a ficar 10 cm menor no cenário de 1,5°C (numa projeção até 2100). Parece pouco, mas como se trata de uma média, faria uma diferença drástica para áreas costeiras de baixa elevação, as mais ameaçadas pela mudança climática.

Áreas terrestres vulneráveis a crises hídricas também poderiam se reduzir em 50% com a mudança de objetivo apreciada agora pelo IPCC. A alteração também reduziria os riscos do aquecimento global para a biodiversidade marinha, os recursos pesqueiros, os ecossistemas e os serviços prestados pela natureza aos humanos.

Os benefícios socioeconômicos mais diretos também seriam grandes. Puxar o objetivo de 2,0°C para 1,5°C também teria reduziria em níveis apreciáveis os riscos climáticos para a saúde, produção de alimentos, modos de sustento, recursos hídricos e segurança humana. Um ponto crucial é que essa mudança também significaria um maior impulso ao crescimento econômico global, compensando investimentos feitos em mitigação.

Os cenários mais viáveis traçados pelos cientistas do IPCC para que isso seja possível, porém, requerem ação praticamente imediata. Segundo o relatório, quanto mais cedo os cortes de emissão começarem, menos o planeta vai depender de ações maciças de remoção de carbono, como plantio de vastas áreas de floresta. As trajetórias simuladas com menor pressa para mitigação de emissões requerem que, no futuro, o planeta atija “emissões líquidas negativas”, com iniciativas de remoção superando em volume a emissão de gases-estufa.

A necessidade de remover e estocar carbono coloca a questão do desmatamento — principal fonte de emissões no Brasil — como um elemento crítico para atingir esse objetivo. Cada hectare de floresta fará diferença quando o planeta tiver que zerar suas emissões líquidas, e é muito mais barato manter uma área florestada do que plantar outra do mesmo tamanho.

Urgência climática
Quando maior a demora em se tomar ações, porém, menos realista parecem os cenários traçados pelo IPCC. Uma lentidão maior para chegar a 50% no corte de emissões iria implicar na adoção extensa de estratégias de eficácia ainda desconhecida em escala operacional, como o que os cientistas chamam de BECCS — bioenergia com captura e armazenamento de carbono.

Considerando-se que a trajetória atual de emissões no planeta aponta para um aquecimento de 3,4°C, porém, sabe-se que nem a meta de 2,0°C é algo dado por certo que o planeta vá atingir, como almeja o Acordo de Paris. O cenário de 1,5°C delineado agora pelo IPCC torna mais palpável a discussão sobre aumento da ambição entre os países signatários, do acordo. As ações tomadas diante dos fatos dependem agora de o que vai ocorrer no plano político.

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