Governo demite vice do IPCC

Thelma Krug foi afastada do cargo de diretora de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente por divergência com secretário-executivo da pasta

A matemática Thelma Krug, vice-presidente do IPCC (Foto: Divulgação/MMA)
A matemática Thelma Krug, vice-presidente do IPCC (Foto: Divulgação/MMA)

CLAUDIO ANGELO
DO OC

A matemática paulista Thelma Krug, 66, foi demitida nesta quarta-feira (19) do cargo de diretora de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente, que ocupava desde 2016.

Uma das criadoras do Prodes, o sistema de monitoramento anual do desmatamento por satélite, Krug é vice-presidente do IPCC, o painel do clima da ONU. No ministério, foi responsável pela revisão do Plano de Prevenção e Combate ao Desmatamento na Amazônia, e pelo projeto de monitoramento do cerrado. Ela já havia sido demitida pelo ministro Sarney Filho no ano passado, somente para ser “desdemitida” no mesmo dia. Na época, o fato foi atribuído a um “mal-entendido administrativo”. Agora a saída é para valer e já vinha sendo especulada há semanas.

Segundo informou o ministério por meio de nota, a própria cientista “manifestou interesse” em deixar o cargo, “para dedicar-se com ainda mais afinco” às suas tarefas no IPCC.

O OC apurou, porém, que a saída aconteceu devido a desentendimentos com o secretário-executivo do MMA, Marcelo Cruz. Este teria questionado os dados de desmatamento do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), ao qual Krug é ligada.

O MMA vem expressando há algum tempo críticas aos dados do Inpe. Entre elas está o fato de que o Prodes, que dá a taxa anual de devastação, só “enxerga” desmates maiores que 6,25 hectares e que não detecta desmatamentos em florestas secundárias. O Inpe contesta, dizendo que essas informações são, sim, aferidas – mas que, para manter a comparabilidade da série histórica, o Prodes só mostra desmatamentos acima desse tamanho e em florestas primárias.

No centro da controvérsia está a forte retomada do desmatamento na Amazônia, que caiu na maior parte do tempo de 2005 a 2012 e voltou a acelerar fortemente nos últimos dois anos. O crescimento de 29% em 2016, para quase 8.000 km2, surpreendeu o ministério – a devastação acumula alta de 60% nos últimos dois anos e põe em xeque a meta climáticas do país para 2020, de redução para 3.900 km2. Fontes do MMA afirmam que há uma discussão sobre a criação de outro sistema de monitoramento.

Questionada pelo OC a esse respeito após o envio da primeira nota, a pasta não negou que o tema esteja em pauta: afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o substituto de Krug está “capacitado para discutir possíveis mudanças para monitoramento e controle do desmatamento”.

O substituto é o biólogo Jair Schmitt, coordenador-geral de Fiscalização Ambiental do Ibama. Com fama de linha-dura, Schmitt foi o principal responsável pela multa de R$ 47,5 milhões aplicada ao banco Santander em 2016 por financiar desmatamento ilegal na Amazônia e um dos mentores da Operação Carne Fria, que autuou frigoríficos no Pará por venda de carne de áreas embargadas por desmatamento ilegal.

Em sua tese de doutorado, de 2015, Schmitt resume sua visão sobre o combate ao desmatamento:

“A apreensão de bens envolvidos nas infrações ambientais, o embargo das áreas desmatadas e a suscetibilidade de uma parcela da sociedade ao valor de dissuasão são os elementos que explicam a parcela de influência da fiscalização ambiental na redução do desmatamento no período estudado [2008-2013]. Contudo, essa redução poderia ser maior se algumas medidas propostas fossem implementadas, tais como: aumento da capacidade de execução das sanções, especialmente o pagamento das multas e a destinação de bens apreendidos; redução do tempo de julgamento das infrações ambientais; aumento da capacidade de apreensão dos bens envolvidos em infrações ambientais; ampliação da quantidade de áreas embargadas por desmatamento ilegal; emprego de ferramentas tecnológicas para aumentar a capacidade de autuação das infrações ambientais; aumento da capacidade de detecção do desmatamento; estruturação dos órgãos estaduais de meio ambiente para atuarem no controle do desmatamento; utilização da Ação Civil Pública como medida estratégica para responsabilizar determinados infratores; realização de esforços conjuntos com a polícia judiciária e o Ministério Público para responsabilizar criminalmente aqueles que desmatam; e empregar a lógica do mercado nas estratégias de fiscalização ambiental para potencializar a dissuasão e inibir o desmatamento ilegal.”

“É lamentável a exoneração da Thelma, mas a indicação do Jair foi uma boa surpresa”, disse ao OC Raoni Rajão, pesquisador da UFMG e especialista em dinâmica de desmatamento.

Procurada pelo OC, Krug não quis comentar a exoneração. “O ministro tem a atribuição de nomear e exonerar conforme lhe seja conveniente.” Ela fica em Brasília até sexta-feira: amanhã recebe do presidente Michel Temer a medalha de oficial da Ordem de Rio Branco. Depois volta a São José dos Campos, onde retorna ao quadro do Inpe.

* Atualizado às 7h50 para corrigir informação no terceiro parágrafo de que Krug havia “pedido a saída”; segundo o MMA, ela “manifestou interesse” em deixar o cargo.

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