23 - June - 2020

Investidores pedem reuniões com governo brasileiro sobre crise ambiental

Grupo de 30 fundos, com ativos de US$ 4,1 trilhões, diz que desmatamento e violações de direitos indígenas expõem empresas investidas a risco e pode prejudicar títulos brasileiros

GREENPEACE

PRESS RELEASE

Um grupo de 30 investidores internacionais enviou nesta terça-feira (23) uma carta às embaixadas do Brasil nos EUA, no Reino Unido, na Holanda, na França, na Noruega e na Suécia, solicitando reuniões com os embaixadores para discutir as políticas ambientais do Brasil. O grupo, integrado por fundos da Europa, dos EUA e da Ásia, controla mais de US$ 4,1 trilhões. É liderado pela norueguesa Storebrand e conta com o apoio de fundos como o Legal and General Investment Management (LGIM), do Reino Unido, a Sumitomo Mitsui Trust Asset Management, do Japão, e o NN Invesment Partners, da Holanda.Carta aberta das instituições financeiras para os embaixadores do Brasil_POR

LEIA A ÍNTEGRA DA CARTA

Esta é a primeira vez que investidores pedem formalmente um diálogo com representantes do governo brasileiro sobre assuntos internos do Brasil. No ano passado, a maioria dos signatários da carta já haviam integrado um grupo maior, de 251 investidores, que expressou preocupação com a crise das queimadas na Amazônia. O pedido de conversa é um passo além. O seguinte pode ser o desinvestimento, que teria impacto para exportações brasileiras e para a geração de empregos no país no momento da recessão pós-pandemia.

“Queremos continuar investindo no Brasil e ajudar a mostrar que o desenvolvimento econômico e a proteção do meio ambiente não precisam ser mutuamente exclusivos. Portanto, instamos o governo do Brasil a demonstrar um claro compromisso com a eliminação do desmatamento e a proteção dos direitos dos povos indígenas”, afirma a Storebrand em nome do grupo.

O grupo de investidores menciona especificamente as declarações do ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) sobre aproveitar a pandemia para avançar na desregulação ambiental, durante a reunião ministerial do dia 22 de abril, o Projeto de Lei 2.633/2020 (o “PL da grilagem”), e o Projeto de Lei 191/2020, que permite a mineração e instalação de hidrelétricas em terras indígenas, além das ameaças de enfraquecimento das regras de licenciamento ambiental.

A mensagem dos investidores internacionais é de que a postura do governo Bolsonaro em relação ao desmatamento e à proteção dos direitos humanos aumenta o “risco Brasil”, potencializando a fuga de capital do país, que só entre fevereiro e abril deste ano totalizou uma perda de US$ 11,8 bilhões em ações e US$ 18,7 bilhões em títulos públicos, de acordo com o Institute of International Finance.[i]

“Considerando o aumento das taxas de desmatamento no Brasil, estamos preocupados com a dificuldade das empresas que podem estar expostas ao desmatamento em suas operações e cadeias de suprimentos no Brasil em acessar os mercados internacionais. Também é provável que os títulos públicos brasileiros sejam considerados de alto risco se o desmatamento continuar”, afirma a carta.

Além disso, a ratificação do acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul e o acordo bilateral de comércio EUA-Brasil estão ameaçados devido às altas taxas de desmatamento, num contexto em que aumentam as preocupações dos parlamentares europeus e dos Democratas no Congresso norte-americano quanto ao desmonte da governança ambiental e direitos humanos.[ii]

Uma análise de um grupo de pesquisadores da London School of Economics (LSE) sobre os títulos públicos brasileiros revelou que a produção agrícola nacional poderá sofrer importantes perdas como consequência do desmatamento e do sistema atual de gestão ambiental, o que leva a secas mais frequentes, degradação da qualidade e fertilidade do solo, redução da biodiversidade e aumento da exposição a desastres naturais. “Esses riscos têm impactos econômicos e fiscais que afetam os perfis de risco, o custo de capital e o acesso aos mercados internacionais de commodities e financeiros dos países”, afirmam os autores.[iii] Foi essa lógica que levou a Nordea Asset Management, que em 2019 detinha US$ 100 milhões em títulos públicos brasileiros, a suspender a compra de títulos do governo do Brasil.[iv]

A preocupação dos investidores pode ter consequências para as exportações brasileiras. Dados levantados pela consultoria Profundo, da Holanda, revelam que só a carteira de investimentos da Robeco, um dos maiores grupos de investidores holandeses, inclui mais de US$ 27 milhões em ações na brasileira Marfrig,[v] que exporta 70% da sua produção de carne.[vi] Uma série de desinvestimentos desse porte poderiam afetar negativamente o agronegócio brasileiro, único setor em alta no PIB do primeiro trimestre de 2020.[vii] De janeiro a março de 2020, o a parcela do PIB proveniente do agro totalizou cerca de US$ 9 bilhões.[viii] Em contrapartida, a LGIM, signatária da carta, tem US$ 1,5 trilhão em ativos sob gestão, com interesses nos ramos agrícola e pecuário, segundo a Profundo.

[i] Fonte: Financial Times https://www.ft.com/content/9872c27b-689d-4a8b-a1e7-58a1b0bb50e1

[ii] ING https://think.ing.com/snaps/dutch-rejection-of-mercosur-sign-of-the-times/, https://www.reuters.com/article/us-usa-trade-brazil/democratic-led-u-s-house-panel-opposes-any-u-s-trade-deal-with-brazil-idUSKBN23A37N

[iii] Pinzón A, Robins N, McLuckie M e Thoumi G (2020). The sovereign transition to sustainability: Understanding the dependence of sovereign debt on nature. London: Grantham Research Institute on Climate Change and the Environment, London School of Economics and Political Science, and Planet Tracker (p. 7). Disponível em http://www.lse.ac.uk/GranthamInstitute/wp-content/uploads/2020/02/The-sovereign-transition-to-sustainability_Understanding-the-dependence-of-sovereign-debt-on-nature.pdf

[iv] https://www.reuters.com/article/us-brazil-environment-investors/nordea-asset-management-suspends-brazilian-government-bond-purchases-due-to-amazon-fires-idUSKCN1VK1S0

[v] https://www.profundo.nl/

[vi] https://exame.com/negocios/como-jbs-marfrig-e-minerva-devem-superar-a-crise-do-coronavirus/

[vii] https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2020/05/29/agronegocio-e-o-unico-setor-em-alta-no-pib-do-1o-trimestre.ghtml

[viii] https://www.cepea.esalq.usp.br/br/pib-do-agronegocio-brasileiro.aspx

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