Mar esquentou duas vezes mais nos últimos 18 anos, diz estudo

18/01/2016
O branqueamento de corais, estudado por este cientista, é um dos efeitos do aquecimento do mar (Foto: National Parks Service/EUA)
O branqueamento de corais, estudado por este cientista, é um dos efeitos do aquecimento do mar (Foto: National Parks Service/EUA)

DO OC

A Terra está esquentando rapidamente por baixo, e isso pode explicar por que ela esquentou menos na superfície do que se esperava na última década e meia. Um estudo publicado nesta segunda-feira sugere que os oceanos dobraram sua absorção de calor nos últimos 18 anos, com um terço do aquecimento indo para suas regiões mais profundas.

A descoberta pode ajudar a esclarecer a confusão da chamada “pausa” no aquecimento global – a constatação de que, precisamente nos últimos 18 anos, o planeta praticamente não viu aceleração em sua taxa de aquecimento, apesar do aumento de 3% ao ano nas emissões de gases de efeito estufa só na última década.

Os dados do grupo liderado por Peter Gleckler, do Laboratório Nacional Lawrence Livermore (EUA), corroboram a tese de que o ar não aqueceu tanto porque a energia em excesso resolveu ir esquentar as profundezas oceânicas. Mesmo com o “hiato”, veja bem, o século 21 registrou 14 dos 15 anos mais quentes da história.

Os pesquisadores levantaram dados sobre absorção de calor pelo oceano compilados desde 1865, com a expedição oceanográfica pioneira do navio britânico HMS Challenger, que lançou as bases da oceanografia física, até 2015, quando os cientistas tinham à sua disposição um sistema de 3.000 boias robóticas – as Argo – espalhadas por todo o oceano e medindo temperaturas minuciosamente.

Esses dados ajudaram a validar simulações feitas com os modelos climáticos usados pelo IPCC, o painel do clima das Nações Unidas. Os modelos foram usados para “prever o passado”, por assim dizer: Gleckler e colegas fizeram simulações em computador para saber como o mar reagia às mudanças no balanço de energia da Terra durante a era industrial.

A conclusão foi que, a partir do início do século passado, os primeiros 700 metros de coluna d’água passaram a esquentar sensivelmente. A partir de 1997, porém, o que as simulações mostram é que esse aquecimento sofreu uma aceleração brutal: os oceanos esquentaram duas vezes mais, e as camadas mais profundas – abaixo de 700 metros – passaram a responder por uma parcela significativa da absorção de calor.

Coincidentemente, foi a partir do ano seguinte, 1998, que a Terra entrou no chamado “hiato” de aquecimento, período no qual a elevação da temperatura média global deixou de acelerar (atenção: as temperaturas continuam subindo, como 2014 e 2015 comprovaram, mas não na velocidade esperada dado o aumento da concentração de CO2 no ar).

Transformada para temperatura, essa absorção de calor parece pequena: o mar esquentou menos de um décimo de grau Celsius por década nos últimos 50 anos em seus 700 metros mais rasos. Só que essa energia equivale a 330 setilhões de joules (o número 33 seguido de 22 zeros). É algo como 10 milhões de vezes a energia liberada por uma bomba de hidrogênio de 1 megaton.

Segundo a oceanógrafa Cátia Domingues, uma brasileira radicada na Austrália que tem trabalhado com Gleckler e colegas nos últimos anos, se esse calor fosse transportado para a atmosfera, o planeta estaria 10oC mais quente. Domingues é autora de um trabalho seminal em 2008 que atualizou os dados sobre o ritmo de absorção de calor pelos oceanos. Até então, achava-se que isso estivesse acontecendo mais lentamente do que o previsto pelos modelos de clima. A cientista descobriu um erro sistemático nas observações e finalmente fez medições e modelos concordarem. Os dados da brasileira foram usados pelo grupo de Gleckler no novo estudo, publicado no periódico Nature Climate Change.

O calor extra nos oceanos é o principal suspeito pela aceleração do degelo da Groenlândia e de parte da Antártida, que ajuda a elevar o nível do mar. Mas o aquecimento é, ele próprio, uma causa importante da elevação, já que água mais quente tende a se expandir.

“Está claro que são os oceanos que estão fazendo o grosso do trabalho de absorver calor no sistema”, disse Gleckler ao jornal The Guardian. “E, se quisermos realmente entender quando calor está sendo aprisionado, não podemos mais apenas olhar para a superfície. Precisamos olhar mais para o fundo.”