Nações insulares cobram ricos da Oceania

08/09/2015

Governantes de Ilhas do Pacífico, que já sofrem consequências das mudanças climáticas, pedem mais ambição nas metas de redução de emissões de Austrália e Nova Zelândia

O ciclone Pam devastou a ilha de Vanuatu, no pacífico Sul, próxima à Austrália. Foto: Oxfam Nova Zelândia
O ciclone Pam devastou a ilha de Vanuatu, no pacífico Sul, próxima à Austrália. Foto: Oxfam Nova Zelândia

CÍNTYA FEITOSA (OC)

Líderes dos países insulares do Pacífico estão reunidos nesta semana para discutir os efeitos das mudanças climáticas na região – e cobrar dos vizinhos ricos, Austrália e Nova Zelândia, que levem a sério a ação contra o que as pequenas ilhas chamam de “ameaça institucional”

O encontro do Fórum dos Líderes das Ilhas do Pacífico começou na segunda-feira (7/9), exatamente seis meses após o ciclone Pam, que devastou a ilha de Vanuatu e causou enchentes em Tuvalu. A anfitriã Papua Nova-Guiné enfrenta uma seca severa, que pode ser a pior das últimas duas décadas e gerar uma crise na produção de alimentos.

A principal crítica dos líderes das Ilhas do Pacífico, reunidos até o dia 11, deve ter como destinatárias a Austrália e a Nova Zelândia – que também participam do grupo –, por suas pouco ambiciosas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa. A primeira propõe como meta a redução de emissões de carbono de 26% a 28% até 2030, em relação aos níveis de 2005, mas as políticas atuais do governo levarão a um aumento de 27% em 2030. A meta australiana foi considerada pelo Climate Action Tracker “uma das mais fracas propostas por um país industrializado”. A Nova Zelândia propõe um corte de 30%, mas com uma série demalabarismos que permitirão ao país aumentar em 11% as emissões por uso de energia.

As lideranças políticas da região defendem a adoção de medidas de mitigação das mudanças climáticas que evitem o aquecimento do globo acima de 1,5ºC em relação ao período pré-industrial. As negociações das Nações Unidas têm levado em consideração o horizonte máximo de 2ºC, mas mantêm oficialmente a possibilidade de 1,5oC. Ainda assim, as metas de redução de emissões apresentadas até agora colocam em risco até esse objetivo.

“O que estamos falando é de sobrevivência”, disse Anote Tong, presidente do Kiribati, um conjunto de atóis a apenas 90 centímetros acima do nível do mar. “Não é sobre o desenvolvimento econômico, não é política. É sobrevivência”, disse ele na reunião.

O resultado final do encontro deve ser uma posição unificada sobre gestão de mudanças climáticas e desastres no Pacífico. Os governos dos países insulares também devem reforçar a necessidade de financiamento por parte dos países mais ricos.

Na semana passada, o Fórum de Desenvolvimento das Ilhas do Pacífico – que exclui a Austrália – já divulgou uma declaração sobre mudanças climáticas que deve ser levada à COP21, a Conferência do Clima das Nações Unidas, que acontecerá em dezembro deste ano, em Paris. Um dos itens declara a preocupação com “o aumento contínuo na produção de combustíveis fósseis, particularmente a construção de novas minas de carvão”.

O primeiro-ministro de Fiji, Frank Bainimarama, pediu que Tony Abbott, primeiro-ministro da Austrália, abandone a “coalizão dos egoístas” e coloque o bem-estar dos pequenos vizinhos da ilha do Pacífico à frente dos interesses da indústria do carvão.

Em 2014, o primeiro-ministro australiano, Tony Abbott, fez uma declaração polêmica na inauguração de uma mina de carvão em Queensland, duramente criticada pelos líderes das pequenas ilhas do Pacífico. “O carvão é vital para as futuras necessidades de energia do mundo”, disse ele. “O carvão é bom para a humanidade.”

Emissões insignificantes

Os países mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas na região são os que menos têm responsabilidade sobre o problema. De acordo com levantamento do World Resources Institute, enquanto Austrália e Nova Zelândia responderam pela emissão de 14,3 bilhões de toneladas de CO2 equivalente de 1990 até 2012, todo o resto do Pacífico emitiu 399 milhões de toneladas no período.

Comparação de nível de emissões das Ilhas do Pacífico com emissões da Austrália e Nova Zelândia. Fonte: Oxfam, com dados do World Resources Institute/CAIT Climate Data Explorer

Comparação de nível de emissões das Ilhas do Pacífico com emissões da Austrália e Nova Zelândia. Fonte: Oxfam, com dados do World Resources Institute/CAIT Climate Data Explorer

Em julho, as Ilhas Marshall apresentaram a sua contribuição inicial para o acordo do clima de Paris, comprometendo-se a reduzir as emissões em 32% até 2025, em relação a 2010, indicando a intenção de reduzir em 45% até 2030, com o objetivo de zero emissões líquidas em 2050 ou antes.

“Nossa mensagem é simples: se um dos menores, mais pobres e geograficamente isolados países do mundo pode fazer isso, vocês também podem”, declarou Tony de Brum, o ministro de Relações Exteriores do país.