28 - fevereiro - 2018

Nova ferramenta permite comparar emissões por floresta em seis países

Usando metodologia brasileira, ClimateWorks Tracker unifica dados de carbono do setor de uso da terra pela primeira vez

Relatório aponta caminhos para eliminar o desmatamento na Amazônia, com benefícios ambientais, econômicos e sociais.
(Foto: Daniel Belta/ Greenpeace)
Relatório aponta caminhos para eliminar o desmatamento na Amazônia, com benefícios ambientais, econômicos e sociais. (Foto: Daniel Belta/ Greenpeace)

DO OC – O setor de uso da terra e florestas vem sendo uma espécie de elefante na sala quando se trata de contabilizar as emissões de gases de efeito estufa dos países. Todo mundo sabe que ele tem um peso enorme nas emissões globais, mas cada país reporta seus dados para esse setor de um jeito diferente. Por isso, comparações entre países costumam ser enganosas – como se se tentasse somar as proverbiais bananas com laranjas.

Uma nova ferramenta do projeto Climate Transparency Initiative (CTI) promete resolver esse problema. Usando a metodologia do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa), do Observatório do Clima, o ClimateWorks Tracker unificou pela primeira vez a “linguagem” na qual as emissões de uso da terra são expressas, permitindo comparações diretas entre seis grandes emissores: Brasil, México, China, Índia, EUA e União Europeia. A nova ferramenta, disponível aqui, se soma às demais do Tracker, que já permitem acompanhar em detalhe as emissões e as trajetórias de emissão do setor de energia.

Somar bananas com bananas, no caso, é fundamental para avançar no rumo da descarbonização da economia global, tal como preconizado no Acordo de Paris para a segunda metade deste século. Ao possibilitar comparações de emissões de uso da terra com projeções, compromissos assumidos e cenários futuros o Tracker promove a capacidade da sociedade civil de atuar junto aos governos para que levem em conta tais efeitos no desenho, implementação e monitoramento das políticas publicas.

O setor de uso da terra e florestas representa uma fatia significativa das emissões globais. Diferentemente das emissões por energia (70% do total, ou 35,8 bilhões de toneladas de CO2 equivalente em 2016), que deram sinais de estabilidade entre 2014 e 2016, suas emissões vêm subindo ano a ano. Em países como o Brasil, ele representa mais de metade das emissões totais. Por outro lado, também diferentemente do setor de energia, o uso da terra responde rápido a políticas públicas de mitigação.

Para facilitar as comparações entre países, o ClimateWorks Tracker relata emissões líquidas, ou seja, descontando as chamadas “remoções antropogênicas”. Nisso ele tem uma diferença importante com o SEEG que precisa ser esclarecida.

Há duas maneiras de reportar os dados de emissão de um país: pode-se falar em emissões brutas (ou seja, o total que efetivamente vai para a atmosfera como produto de ações humanas) ou líquidas, em que se subtrai dessa conta o carbono retirado da atmosfera por ações humanas como a restauração de florestas.

O IPCC, o painel do clima das Nações Unidas, autoriza os países a descontar de sua contabilidade as chamadas remoções antropogênicas. O Brasil faz isso, considerando “antropogênicas” as remoções de CO2 por unidades de conservação e terras indígenas. Estima-se um fator de remoção e multiplica-se esse fator pela área florestal em TIs e UCs. O resultado é uma “deflação” que pode chegar a centenas de milhões de toneladas de CO2 equivalente nos inventários nacionais de emissão.

Os técnicos do SEEG consideram essa contabilidade problemática, já que não há nenhuma garantia de que as florestas nessas áreas protegidas, em sua maioria florestas tropicais maduras, estejam de fato removendo carbono nessa quantidade. Por exemplo, o fator de remoção usado no Terceiro Inventário Nacional, de 2016, difere do do segundo, de 2010, o que torna as remoções do Segundo Inventário quase três vezes maiores.

Por essa razão, o OC prefere apresentar os dados do SEEG em remoções brutas, embora, por transparência e comparabilidade, sempre publique também as emissões líquidas. Já o Tracker usa sempre emissões líquidas, com base na metodologia definida pelo IPCC em seu Quarto Relatório de Avaliação (AR4). Na plataforma do SEEG é possível baixar os dados de emissão do Brasil segundo esses mesmos parâmetros.

O modelo da CTI elucida as métricas de atividade e intensidade que anualmente impulsionam as emissões de gases de efeito estufa no Brasil. Essas informações serão usadas para acompanhar o progresso da descarbonização à medida que a NCD (Contribuição Nacionalmente Determinada) do país comece a ser implementada. O ClimateWorks Tracker atualizado não só fornece esses serviços em relação ao uso da terra, mas também contextualiza as emissões e os sumidouros de carbono resultantes do uso da terra em relação ao setor de energia.

À medida em que emergem estratégias de redução de emissões para o meio do século e outras estratégias de longo prazo, o foco nesses fluxos de carbono se intensificará, com as nações se esforçando para alcançar emissão líquida zero. O desenvolvimento do modelo brasileiro ofereceu uma excelente oportunidade de colaboração com especialistas locais em uso da terra. A partir daí metodologias semelhantes foram implementadas em outros países. Em xua próxima etapa, o projeto usará os modelos da CTI para explorar como o setor agropecuário poderia contribuir para a redução das emissões.

Explore o ClimateWorks Tracker aqui:

http://cti.climateworks.org/pt-br/

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