01 - setembro - 2017

O clima da semana: uma Renca de problemas e a tragédia na Ásia

Um pouco sobre os principais acontecimentos que movimentaram a pauta ambiental: as idas e vindas da RENCA, os estragos do furacão Harvey e as monções da Índia, que deixaram 1.500 mortos

Estação Ecológica do Jari, na Reserva Nacional de Cobre e seus 
Associados (RENCA).
Estação Ecológica do Jari, na Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (RENCA).

A semana começou e terminou sob a sombra da Renca, a reserva minerária do tamanho do Espírito Santo criada pelos militares e que o governo Temer extinguiu, ressuscitou e extinguiu de novo em quatro dias. O episódio gerou uma comoção nacional tão grande que Temer foi forçado a suspender o efeito do decreto por 120 dias para abrir um “debate com a sociedade”.

A Renca (Reserva Nacional de Cobre e Associados) está sobreposta a várias áreas protegidas numa das regiões mais preservadas da Amazônia. Na segunda-feira (28), diante de uma grita nacional contra o fim da reserva que botou a Amazônia nos trending topics do Twitter, Temer mandou os ministros de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, e do Meio Ambiente, José Sarney Filho, recuarem do decreto de extinção publicado no dia 24, mas sem recuar: o decreto foi revogado e um outro publicado em seu lugar no dia seguinte, explicitando melhor a questão da preservação ambiental (mas dizendo a mesma coisa). O PSOL e a Rede pediram ao STF que julgasse a legalidade do ato, mas a pauta caiu no colo de Gilmar Mendes, amigo-de-fé-irmão-camarada de Temer.

Na terça, OC revelou que a extinção da reserva atropelara um parecer do Ministério do Meio Ambiente que desmentia a versão da Presidência de que a reserva “não é um paraíso” (apenas 1,1% de sua área estava desmatada) e dizia que sua revogação poderia abrir uma nova frente de desmatamento.

Na quarta-feira, um juiz de Brasília concedeu uma liminar sustando o decreto presidencial de extinção da reserva. No mesmo dia, a Frente Parlamentar Ambientalista realizou um ato na Câmara com ambientalistas contra os retrocessos ambientais temeristas. A ONG Avaaz entregou aos deputados uma petição com mais de 700 mil assinaturas pela manutenção da Renca.

Na quinta à noite o governo capitulou: às 21h36, o ministro Coelho Filho soltou uma nota à imprensa anunciando a paralização de todos os procedimentos relativos a direitos minerários na área por quatro meses, “em respeito às legítimas manifestações da sociedade e a necessidade de esclarecer e discutir as condições que levaram à decisão de extinção da Renca”. A ver se a poeira abaixa e Gisele Bündchen larga do pé do presidente.

Totalmente inviável

Enquanto Michel Temer brigava com Caetano Veloso e Anitta pelas terras Amazônicas, a presidente do Ibama, Suely Araújo, brigava com as petroleiras pelos mares. Na noite de segunda, ela deu um ultimato à francesa Total, que tenta licenciar atividade de exploração na foz do Amazonas (próximo ao recém-descoberto banco de corais). Segundo o despacho de Araújo, a Total ainda não cumpriu as condições para receber a licença, e o processo será arquivado se ela não responder aos questionamentos do órgão ambiental.

Houston, vocês têm um problema

O furacão Harvey desabou sobre o Texas na sexta-feira passada e deixou um terço de Houston, a quarta maior cidade do país, debaixo d’água. Em alguns lugares, choveu em três dias mais de 1.200 milímetros, que é o que chove no Rio de Janeiro durante um ano. É provável que Harvey tenha sido a pior tempestade a atingir os EUA em volume de chuva (embora o furacão Katrina, em 2005, tenha causado muito mais destruição). Por ter atingido a maior zona de refino de petróleo do planeta, o Harvey fez o preço da gasolina disparar – 2,7% somente no Brasil a partir de sábado, segundo a Folha de S.Paulo.

De acordo com o New York Times, uma combinação de fatores deixou a tormenta tão poderosa: um Golfo do México mais quente (portanto, com mais vapor na atmosfera para alimentar furacões); uma falta de ventos na alta atmosfera que pudessem acelerar a dissipação do evento (e que especialistas atribuem ao degelo do Ártico, que mexeu com as correntes de jato); e uma ressaca violenta, cortesia do aumento do nível do mar. Até sexta-feira, o saldo era de 39 mortos.

Mas… e Bengala?

Enquanto a cobertura de imprensa e as atenções mundiais se voltam para os EUA, menos olhares recaíram sobre uma tragédia humana incomparavelmente maior: as monções deste ano, que deixaram 1.500 mortos na Índia, em Bangladesh e no Nepal. Mais fortes do que de costume (e adivinhe a quem agradecer), as chuvas arrasaram a província de Bengala Oeste, na Índia. Em Bombaim, capital financeira do país, 33 pessoas morreram no desabamento de um prédio centenário que não resistiu à água. Leia o relato no Climate Home.

Tribunais do clima

Embora a tarefa de atribuir eventos extremos individuais como o Harvey e as monções à mudança climática seja notoriamente espinhosa, um grupo de advogados alertou nesta semana que esse tipo de estudo está cada vez mais frequente e mais preciso. O resultado, preveem, será uma onda de ações judiciais contra governos e empresas de gente prejudicada pelo aquecimento global em busca de ações de corte de emissões, adaptação e reparação por prejuízos sofridos. Relatamos aqui.

O polo Norte esteve aqui

A Rússia comemorou nesta semana um feito agourento: um petroleiro carregado de gás natural liquefeito atravessou pela primeira vez a Rota Marítima do Norte, que vai até a Ásia pelo litoral ártico russo, sem ajuda de um quebra-gelo. O regime de Vladimir Pútin espera viabilizar o transporte de cargas por essa via, antes permanentemente congelada, para tornar economicamente atraentes projetos de óleo e gás no Ártico. Vai vendo.

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