16 - dezembro - 2015

Outras visões sobre o Acordo de Paris

“Não posso acreditar!  Nós conseguimos!  Conseguimos!”

 

A expressão entusiasmada foi apenas uma das inúmeras que encheram as redes sociais ontem depois que saiu o Acordo de Paris que busca frear as emissões de carbono no mundo.  É da francesa Laurence Tubiana, atual embaixadora encarregada das negociações, diretora do Institute for Sustainable Development and International Relations (IDDRI), que vem há muito tempo acompanhando os bastidores desse acordo que há 20 anos começou a ser costurado pelas Nações Unidas.  Em 2009, pós Conferência de Copenhague (COP-15), considerada um fracasso, a expressão de Tubiana era bem diferente da que apresentava nas fotos tiradas ontem ao lado do diplomata Laurent Fabius, a quem coube a glória de bater o martelo do acordo.  Triste, cabisbaixa, decepcionada, Tubiana declarara então às câmeras da equipe que filmava o documentário “COP-15 – Crônica de um acordo inacabado” (veja aqui o trailer), que o clima havia se tornado uma questão política.  Por isso não se conseguia um acordo.

 

Acho sempre bom visitar a história.  E me perguntou: será que isso mudou?

 

Há seis anos, o grande empecilho fora o fato de os Estados Unidos não terem chegado à reunião com alguma grande ideia de acordo, já que o congresso norte-americano, de maioria republicana, resiste em aprovar medidas para baixar emissões.  Para este acordo de 2015, a lição foi aprendida e um subterfúgio jurídico, colocado no texto, permite que as decisões em prol do clima possam ser tomadas por decretos presidenciais.

 

Não se trata de diminuir o feito histórico.  Um acordo como esse, em que 195 nações decidem, em conjunto, manter o aquecimento apenas em 1,5 grau até 2100 é uma demonstração de força e coesão.  Até mesmo o estudo sobre tais detalhes jurídicos que possibilitam driblar resistências já tem um grande valor.  E é político.

 

Os países insulares, que em 2009, quando os líderes decidiram fixar em 2 graus o limite para o aquecimento global até 2050, se declararam impotentes diante do futuro porque seus territórios serão engolfados pelos oceanos com um aquecimento acima de 1,5 grau, desta vez se sentem contemplados.  Pouca gente esperava que o patamar de 1,5 grau fosse oficializado pela COP-21, era esse o pedido deles.

 

A outra “boa” notícia para os menos privilegiados, agora, seria a decisão de os países ricos ajudarem os países pobres com financiamento de US$ 100 bilhões por ano.  Mas isso é ainda uma promessa, e antiga.  Na reunião do G-7 – Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Itália, Canadá e Japão – os países mais industrializados do mundo, em junho deste ano, esse montante já havia sido acordado.  Aliás, nessa mesma reunião eles foram um pouco mais além, garantindo ao mundo que até o fim do século não mais usarão combustíveis fósseis.  E já existe o Fundo Verde para o Clima, criado na COP-16, em 2010, com o mesmo objetivo: ajudar os países emergentes a implementarem medidas de combate aos efeitos das mudanças climáticas.

 

O que acontece é que no Acordo de Paris (leia aqui a íntegra, em inglês) não são especificados os meios para se chegar aos fins.  Nem para manter o aquecimento em 1,5 grau nem para o financiamento.  Não se deve buscar tanta concretude em resoluções feitas a tantas mãos, entende-se.  Sendo um instrumento-base para ser negociado em cada país, que agregará demandas regionais, o acordo então já teria cumprido parte de seu papel, e não é pouca coisa.  Eu disse “parte” porque, na visão da ActionAid, organização cujo mote é o fim da pobreza, e de muitas outras com as quais fui fazendo contato durante todo o dia de ontem, esse quesito – fim da pobreza e da desigualdade social – ficou de fora.  E isso também não é pouca coisa.

 

“O que esperávamos de Paris era um acordo que colocasse as pessoas mais pobres do mundo em primeiro lugar porque são elas, afinal, que vivem com a constante ameaça de um próximo desastre ambiental.  No entanto, o que nos foi apresentado não é suficiente para melhorar a frágil existência de milhões de pessoas em todo o mundo”, declarou Adriano Campolina, diretor executivo da ActionAid.

 

Busquei informações sobre o estado de ânimo dos indígenas pós-acordo.  Para eles, o importante seria que os líderes das nações, em conjunto, pensassem numa solução que não reforce o modelo econômico excludente.  Mesmo tendo uma referência – rápida, é verdade, quase caindo da página – no texto do acordo, eles não estão contentes.  No site da Rede Ambiental Indígena os indígenas são diretos: eles, que estão vivendo na pele mais duramente os efeitos das mudanças climáticas, é que deveriam ter sido ouvidos na hora de se pensar nas soluções.

 

“Nós, povos indígenas, somos a linha vermelha, de alerta, para o mundo.  E somos também os defensores das regiões mais diversificadas do mundo, tanto biologicamente quanto culturalmente.  Nosso conhecimento tem muito das soluções para as mudanças climáticas que a humanidade está, no momento, procurando”, declarou Tom Goldtooth Diretor Executivo da Rede.

 

Correndo os sites de notícias, vi pontuada ainda a falta de um detalhe bastante relevante no texto: alguma referência à diminuição – ou mesmo extinção – da produção de combustíveis fósseis, não apenas metas para reduzir os danos causados por eles.  Para o colunista do jornal britânico “The Guardian” George Monbiot, as negociações sobre quase todos os outros perigos globais procuram abordar ambas as extremidades do problema, diferentemente do que acontece com o Acordo de Paris:

 

“Em comparação com o que poderia ter sido, (o acordo) é um milagre.  Em comparação com o que deveria ter sido, é um desastre.  O acordo de Paris ainda aguarda aprovação formal, mas seu limite aspiracional de 1.5C do aquecimento global, após a rejeição desta demanda por tantos anos, pode ser visto dentro deste quadro como uma vitória retumbante.  Neste e em outros sentidos, o texto final é mais forte do que a maioria das pessoas havia previsto.  Mas o acordo está cheio de promessas vazias.  Até que os governos se comprometam a não mais perfurarem o chão em busca de combustíveis fósseis, eles vão continuar a minar o acordo que acabaram de fazer”, escreve o jornalista.

 

É uma visão pessimista, sem dúvida, mas não se pode deixar de dar razão a Monbiot.  Num sistema que privilegia o desenvolvimento e o progresso, é pouco provável que uma nação decida agora, pós-acordo, que vai parar de extrair petróleo para exportação, por exemplo.  E este seria o único jeito de alcançar, verdadeiramente, a meta que o acordo se propõe.

 

Nos comentários do post do jornalista, uma realidade bem dura e crítica é relatada por um internauta indiano, que se queixa de o novo acordo obrigar seu país a fechar suas usinas de carvão para reduzir as emissões enquanto o mundo ocidental se recusa a copiar o estilo de vida indiano, muito menos consumista.

 

Um pouco mais contundente do que Monbiot foi a declaração de James Hansen, ex-diretor da Nasa, que nos anos 80 foi a primeira pessoa a enfrentar o congresso norte-americano com a notícia de que o planeta estava aquecendo e que o fenômeno era resultado da ação do homem.  Em entrevista ao “The Guardian”, (leia aqui, em inglês) , Hansen diz que o acordo está cheio de palavras inúteis.  O cientista sugere que o carbono tenha um preço na tonelada emitida por cada país emissor.  Para ele, esta seria a melhor solução, já que os impostos assustam as pessoas.

 

A linha vermelha que caracteriza o grande risco que a humanidade está correndo com o aquecimento global ganhou várias formas lúdicas e foi para a frente da Torre Eiffel ontem, em manifestação pacífica, autorizada pelo governo, com cerca de dez mil pessoas.  Segundo relatos de quem acompanhou o evento, naquele encontro muitas vozes puderam ser ouvidas.  A que fica mais forte é que o Acordo de Paris é apenas um início.  E que a luta continua: a favor de uma sociedade mais equitativa, onde os pobres não sejam os mais penalizados pelo resultado de uma política de anos pró-combustíveis fósseis e de um modelo econômico que promove, como se sabe, a desigualdade.

 

Domingo, 13/12/2015, às 13:30, por Amelia Gonzalez

 

 

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