25 - novembro - 2015

Paris pode ser uma virada, diz ‘Pessimildo’

Crítico das negociações do clima, David Victor, da Universidade da Califórnia, explica por que está otimista com a COP21 – mesmo que o objetivo de limitar aquecimento a 2 graus esteja fora do alcance

David Victor, da Universidade da Califórnia em San Diego (Foto: Divulgação/UCSD)
David Victor, da Universidade da Califórnia em San Diego (Foto: Divulgação/UCSD)

CLAUDIO ANGELO (OC)

Nem todas as previsões otimistas sobre o resultado da conferência do clima de Paris têm o mesmo valor. Quando elas vêm de David Victor, por exemplo, convém prestar atenção.

Professor de relações internacionais da Universidade da Califórnia em San Diego, Victor é um dos analistas com o maior histórico de críticas ao processo de negociação de clima da ONU – alguém a quem Dilma Rousseff provavelmente chamaria de “Pessimildo”.

Seu livro “The Collapse of the Kyoto Protocol” (O Colapso do Protocolo de Kyoto), de 2000, tornou-se referência obrigatória para estudiosos do acordo do clima, ao explicar as razões para a ruína do tratado antes mesmo da famosa rejeição do governo Bush, no ano seguinte. De lá para cá, Victor tem feito análises impiedosas – e em geral corretas – sobre o imobilismo da Convenção do Clima.

Mas não desta vez.

Num artigo publicado nesta quarta-feira no periódico científico Nature, Victor e seu colega James Leape, da Universidade Stanford, argumentam que Paris “pode ser uma virada” no empacado processo rumo à descarbonização da economia global.

“Essa não é uma posição comum para mim, a de otimismo em relação à cooperação nas mudanças climáticas”, disse Victor ao OC. “Mas há novas estratégias, muito mais adequadas ao problema, e a probabilidade de sucesso é muito maior.”

Segundo Victor, o acordo de Paris é diferente de seu malfadado predecessor em vários aspectos: primeiro, na flexibilidade, ao permitir que os compromissos dos países fossem construídos de baixo para cima – e não de cima para baixo, como foi Kyoto, que fixou uma quantidade de emissões a abater e distribuiu a conta entre os países. Depois, por avanços externos ao próprio acordo, como os entendimentos bilaterais entre EUA e China em energia e entre Brasil, Noruega e Alemanha no caso das florestas. Finalmente, por um grau de envolvimento que ele considera “sem precedentes” de ONGs ambientalistas e do setor privado.

Nem mesmo o terrorismo, que estragou as chances de Kyoto ao mudar totalmente a agenda dos EUA, em 2001, parece ser uma ameaça ao progresso em Paris. “Muita gente que vai para lá estará nervosa. Mas, francamente, as mulheres deles é que estarão nervosas.”

Fiel a si mesmo, porém, Victor faz um alerta: o sucesso da conferência que começa na semana que vem não deve ser medido em termos de pôr o mundo no rumo de evitar os 2oC de aquecimento global. “Isso não é mais possível”, diz. O que é importante é que Paris estabeleça confiança e cooperação internacional para uma tarefa longa de descarbonização nas próximas décadas – mesmo que os impactos do aquecimento sejam sérios e inevitáveis.

“Se os países saírem de Paris com confiança no processo, e um processo desenhado para se ajustar adiante e desenvolver cooperação mais efetiva ao longo do tempo, isso será um feito enorme”, argumenta.

Leia a seguir a entrevista concedida ao OC, por telefone:

*

O sr. diz que Paris deve ser um ponto de virada. Por quê?

A cooperação internacional se baseia em credibilidade e confiança. É uma atividade voluntária. Ela requer que os países deixem um pouco de lado o próprio interesse, contando com que outros países farão o mesmo. E nos últimos 25 anos o sistema de negociações climáticas não vem sendo desenhado para permitir aos países o tipo de flexibilidade para estabelecer suas próprias políticas e seus pacotes de propostas. Essa negociação tem sido estruturada em torno de um acordo integrado complicadíssimo, com o qual todos têm de concordar, o que é basicamente impossível. O que é novo em Paris é que eles não estão contando apenas com esse grande acordo global, no qual qualquer país que não goste do acordo pode causar estrago. E, em vez disso, há um papel maior para que grupos menores de países cooperem. Por exemplo, cooperação bilateral entre os EUA e a China, ou entre a Noruega, o Brasil e a Alemanha em florestas. Todos esses grupos menores, além do acordo global, fizeram a maior parte do trabalho. Essa é uma coisa nova sobre Paris. Outra novidade é que o sistema de Paris será do tipo “pledge and review”, no qual os países desenvolvem suas próprias políticas e põem na mesa suas metas, e hoje temos metas de mais de 150 países que já foram propostas, e elas não são perfeitas, mas a ideia é que você dá ao país flexibilidade para dizer o que ele quer fazer em casa. E você constrói o acordo de baixo para cima em vez de fazê-lo de cima para baixo.

Mas essa abordagem foi cogitada para o Protocolo de Kyoto e abandonada.

Sim, porque em Kyoto eles cometeram um erro enorme. O que eles fizeram em Kyoto foi quase sob medida para garantir o fracasso. Essa não é uma posição comum para mim, a de otimismo em relação à cooperação nas mudanças climáticas, porque esse é um problema muito, muito difícil para as sociedades resolverem, mas eles o tornaram ainda mais difícil ao adotar um sistema inflexível e de cima para baixo de metas e prazos que foi adotado em Kyoto. O fato é que, para mim, a mudança climática ainda é um problema muito difícil de enfrentar. Mas há novas estratégias, muito mais adequadas ao problema, e a probabilidade de sucesso é muito maior. Então, para mim, essas duas coisas são novidades e ambas são boas ideias; elas refletem em grande medida coisas que eu já vinha argumentando que deveriam ter sido feitas muitos anos atrás, mas antes tarde do que nunca. Então acho que tudo isso é boa notícia. Mas é importante que tenhamos clareza do que é o padrão de sucesso aqui. O padrão de sucesso não é cortes profundos nas emissões nem parar o aquecimento em 2oC, porque isso não é mais possível. Mas, se os países saírem de Paris com confiança no processo, e um processo desenhado para se ajustar adiante e desenvolver cooperação mais efetiva ao longo do tempo, isso será um feito enorme. É isso o que eu quero dizer com ponto de virada.

Se eu entendi bem, o sr. está dizendo que Paris será um sucesso justamente por causa de tudo o que a Convenção do Clima fracassou em entregar nos últimos 25 anos – a ação real deixou as salas de negociação e começou a acontecer em outros fóruns. É isso?

É importante não exagerar nessa afirmação. É verdade que há muito mais atividade de baixo para cima, muito mais atividade em grupos pequenos. Por outro lado, as negociações no âmbito da ONU seguem sendo o guarda-chuva sob o qual tudo isso acontece, e elas são, em si mesmas, uma parte muito importante do processo, porque, sem elas, muitas coisas que estão acontecendo não ocorreriam. Seria muito difícil, por exemplo, manter o engajamento dos países menos desenvolvidos.

A cúpula do G20, há alguns dias, estava cercada de expectativas em torno de uma sinalização política forte para Paris, e não foi o que aconteceu. É um mau sinal?

Não. Primeiramente, o G20 é um grupo de países que têm interesses muito diversos. É provavelmente um grupo grande demais para trabalhar de verdade em problemas muito complexos. Evidência disso é que uma das primeiras coisas que o G20 fez, em 2009, foi adotar uma declaração muito esperta sobre o fim dos subsídios a combustíveis fósseis – foi uma ideia muito boa. Mas, desde então, eles não fizeram basicamente nada a respeito. O G20 virou um fórum de conversa em vez de ser um fórum de ação. E eu acho que é porque o grupo é grande, porque a agenda está constantemente em fluxo, e neste ano, por exemplo, muito tempo que poderia ter sido aproveitado em outros assuntos foi compreensivelmente gasto com os outros acontecimentos em Paris, o terrorismo, e você tem no G20 países que têm interesses completamente distintos, incluindo a Arábia Saudita, que francamente não quer que os cortes de carbono tenham sucesso. Então é difícil que o G20 seja eficaz. Acho que outros grupos terão uma eficácia maior, como a coalizão de países em torno dos poluentes de vida curta, as nações do Ártico.

O sr. vê algum risco de o tema do terrorismo sequestrar a agenda de Paris?

Não. Muita gente que vai para lá estará nervosa. Mas, francamente, as mulheres deles é que estarão nervosas. Meu sentimento é que o impacto do terrorismo será pequeno. Vão cancelar alguns eventos paralelos. Eu assumo que não haverá outras ações terroristas, o aparato de segurança será imenso.

Como dar dentes a esse processo, uma vez que parece claro agora que não haverá um tratado legalmente vinculante tradicional?

O que vai acontecer é que o padrão que eles colocaram para si mesmos não é um tratado. É um acordo com aspecto legal. Para alguns países isso significa um tratado, porque nos seus sistemas legais você precisa de um tratado para fazer as coisas. É por isso que os europeus estão focados em tratados. Mas em outros países, como o meu, se você tem um tratado ele precisa ir ao Senado para ratificação, e você não consegue que o Senado americano ratifique nenhum tratado. Foi por isso que há alguns dias [o secretário de Estado] John Kerry veio e disse, de forma algo deselegante, que a natureza do acordo não seria legalmente vinculante. O que ele quis dizer foi outra coisa, ele esclareceu isso mais tarde: o que ele disse foi que não seria um tratado da perspectiva da legislação americana.

Em 2009 o sr. estava focando bastante em geoengenharia, porque não achava que fosse ser possível limitar o aquecimento global a nenhum patamar seguro. O sr. diz agora que não acredita na factibilidade de 2oC. Ainda estamos comprometidos com a geoengenharia?

Eu acho que a geoengenharia é importante enquanto opção para gerenciar riscos. Há uma chance crescente de que alguma coisa muito ruim vá acontecer com o clima, porque passamos muito tempo sem fazer nada sobre as emissões. E agora talvez estejamos a ponto de virar uma esquina. Mas virar uma esquina não significa cortar emissões. Neste momento, se você somar todas as propostas dos países, ainda estamos falando de reduzir o ritmo do crescimento das emissões. Nesse mundo, um mundo em que você segue acumulando gás carbônico na atmosfera, você tem muitos riscos, então precisa de alguma estratégia para lidar com eles, mesmo que a possibilidade de ocorrência seja baixa. E, na minha visão, é para isso que a geoengenharia serve. Eu não acho que seja o principal, acho que o mais importante agora é virar a esquina nas emissões. Mas parte da estratégia tem de ser a geoengenharia, e isso por enquanto ainda é algo extremamente controverso. As únicas pesquisas com geoengenharia acontecendo hoje provavelmente ocorrem em segredo, não em instituições públicas abertas onde poderíamos debatê-las. Essa era a preocupação que eu tinha em 2009 e a preocupação que eu tenho hoje. Quase nada mudou.

Então não é possível limitar o aquecimento a 2oC, mas este não é o nosso maior problema, é isso?

Correto. Os cenários tendenciais têm o aquecimento indo de 3oC a 4oC, talvez mais, então o fato de que estamos começando a mudar a taxa de crescimento das emissões é uma boa notícia. Há um ano fui co-autor de um artigo na Nature argumentando por que a meta de 2oC não era mais factível. O problema é que, se nos anos 1990, as pessoas tivessem começado a controlar emissões de uma maneira eficaz, poderia ter sido possível atingir essa meta. Mas hoje, quase 20 anos mais tarde, temos 20 anos de emissões acumuladas e um sistema energético global que está apontando na direção errada e é muito, muito difícil mudar a direção desse navio. Essa é a situação hoje. Esse artigo foi muito controverso e as pessoas o odiaram! (Risos). Porque ele estava basicamente dizendo a verdade.

Neste ano, um pesquisador alemão, Oliver Geden, argumentou a mesma coisa, também na Nature, e as pessoas também odiaram.

Eu acho que o artigo está correto. Oliver e eu pensamos de forma muito parecida. O problema é que as pessoas têm uma dificuldade terrível em lidar com a realidade.

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