15 - junho - 2018

Pecuária multiplicou renda, mas desempregou, diz economista

Empregos no setor caíram de 8,5 milhões para 6,7 milhões entre 2000 e 2015, enquanto renda saltou de R$ 48 bi para R$ 400 bi

Gado em pastagem recuperada em Mato Grosso (Foto: Pecsa)
Gado em pastagem recuperada em Mato Grosso (Foto: Pecsa)

DO OC – Uma rápida comparação entre os principais indicadores de renda e emprego gerados pela pecuária revela que a expansão do setor não apenas tem sido feita sem planejamento territorial, como também tem reduzido o número de postos de trabalho e concentrado a riqueza nas mãos de poucas pessoas. A conclusão faz parte de uma análise do economista Carlos Eduardo Young, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A riqueza gerada pela pecuária no Brasil passou de pouco mais de R$ 48 bilhões no início deste século para R$ 400 bilhões em 2015, contribuindo com cerca de 30% do PIB do agronegócio, de acordo com dados da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). Foi o período de maior alta na série histórica do setor.

Já os postos de trabalho não seguiram a tendência de alta da produção. A pecuária e pesca empregou 8,5 milhões de pessoas em 2000 e reduziu os postos de trabalho para 6,7 milhões em 2015, o que sugere uma baixa de 21%, segundo o IBGE. Nenhum setor desempregou mais do que a pecuária e a pesca no período, considerando que a pesca representa um percentual muito pequeno do total.

A pecuária tradicional vem sendo substituída por formas mais lucrativas e predatórias de criação. Os vaqueiros, pouco a pouco, estão sumindo das contas do IBGE, como mostram os dados do instituto. Segundo Young, a relação equino/bovino pode sugerir redução no número de vaqueiros tradicionais, já que o vaqueiro anda a cavalo. Na microrregião do Baixo Pantanal (Corumbá, Ladário e Porto Murtinho) havia 2,3 milhões de bovinos e 58 mil equinos em 1976. Em 2016, os bovinos aumentaram para 2,5 milhões e os equinos caíram para 45 mil, segundo o IBGE.

“A expansão da pecuária não tem levado a um aumento dos empregos diretos. Pelo contrário, tem resultado em aumento da concentração fundiária e do poder ruralista, gerando corrupção, além de colocar em risco a viabilidade do negócio e a conservação da natureza”, disse Young ao citar a alta do desmatamento no período: o cerrado perdeu 236 mil quilômetros quadrados de mata.

O reforço público à economia da pecuária prosperou. Os frigoríficos ficaram com 80% das verbas externas do BNDES desde 2005, de acordo com dados do próprio Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social. Foram R$ 11,7 bilhões aos frigoríficos, dos cerca de R$ 14,5 bilhões destinados à internacionalização de empresas brasileiras. A JBS ficou com mais da metade (56%) dos recursos.

Há quem argumente que o emprego do agronegócio está no processamento de alimentos. Young discorda. Basta, segundo ele, comparar o desemprego entre 2000 e 2015 nos setores de agricultura, silvicultura, exploração florestal pecuária e pesca (3,6 milhões) com o aumento de ocupações em toda a indústria de alimentos e bebidas (952 mil).

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) e a CNA foram procuradas e não se manifestaram até o fechamento da reportagem. (LUCIANA VICÁRIA)

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