30 - abril - 2018

Peixe resiste ao aquecimento do oceano, com uma ajudinha de Lamarck

Espécie habitante de recifes exposta a água mais quente consegue transmitir aclimatação aos descendentes, afirmam cientistas australianos

O peixe-donzela Acanthocromis polyacanthus (Foto: Wikipedia)
O peixe-donzela Acanthocromis polyacanthus (Foto: Wikipedia)

DO OC – Cientistas australianos descobriram que uma espécie de peixe que habita recifes de coral é capaz de se adaptar ao aquecimento global, contando para isso com uma ajuda inesperada: a do naturalista francês Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829), o pai da teoria “errada” da evolução. O bicho é capaz de transmitir a aclimatação à água quente a seus descendentes.

Crianças e adolescentes em idade escolar conhecem Lamarck como o sujeito que propôs que as espécies evoluem ao passar aos seus descendentes características adquiridas em vida. No exemplo mais famoso, as girafas teriam pescoço grande porque seus ancestrais precisavam se esticar cada vez mais para alcançar a comida no alto das árvores.

Hoje, graças ao conhecimento da genética, sabe-se que a evolução ocorre pela seleção de mutações aleatórias no DNA que confiram alguma vantagem a seus portadores. Girafas ancestrais que calhassem de ter nascido com o pescoço maior podiam alcançar comida de melhor qualidade, tinham mais filhotes e espalhavam seus genes na população. A expressão “lamarckismo” virou sinônimo de engano, e o pobre naturalista tornou-se motivo de piada no mundo todo (exceto na França).

Nas últimas duas décadas, porém, diversas pesquisas têm vingado a memória de Lamarck e indicado que, sob certas circunstâncias, características adquiridas podem, sim, ser herdadas. O caso mais recente parece ser o do peixinho Acanthochromis polycantus, um habitante dos recifes de coral dos oceanos Pacífico e Índico. A espécie possui a capacidade de se aclimatar a águas até 3oC mais quentes que seu habitat normal e de transmitir essa capacidade ao DNA de seus filhotes.

Um grupo liderado por Philip Munday, da Universidade James Cook, na Austrália, estudou o bicho em condições anormais de temperatura e descobriu que expor uma geração ao calor adicional mexe na ativação genes ligados à resistência ao calor nos seus descendentes. São trechos de DNA correlacionados a uso de oxigênio, angiogênese (formação de vasos sanguíneos), atividade energética das células e produção de insulina.

Isso ocorre devido às chamadas mudanças epigenéticas. Não se trata de alterações no DNA em si, mas do acréscimo de moléculas que impedem o maquinário da célula de “ler” corretamente as instruções genéticas na hora da divisão celular. Essas moléculas, chamadas radicais de metila (CH3), desligam alguns genes e mantêm outros ligados. Como isso ocorre ainda é um mistério.

Munday e colegas analisaram o mapa completo de transcrição do DNA (o chamado “transcritoma”) de peixes-donzela expostos a incrementos radicais ou graduais de temperatura e detectaram mais de 2.400 metilações em 193 genes envolvidos com a aclimatação. Filhotes de pais que viviam em água 3ºC mais quente lidavam melhor com a temperatura, minimizando o consumo de oxigênio e usando energia de forma mais eficiente. O estudo foi publicado no periódico Nature Climate Change.

“Esta é a única espécie na qual esses mecanismos foram testados até agora, mas parece provável que eles ocorram em outras”, afirmou Mundy ao OC.

Num oceano no qual ondas de calor como a que causou a mortandade em massa de corais na Austrália em 2016 estão 34% mais prováveis desde o século 20, essa plasticidade de espécies de peixe parece uma boa notícia. Mas o pesquisador australiano recomenda esfriar os ânimos.

“Os corais são muito mais sensíveis termicamente do que os peixes, e nós já estamos observado mudanças completas nas comunidades coralinas da Grande Barreira”, afirmou. “Portanto, embora alguns peixes possam conseguir se aclimatar ao aquecimento, suas populações mesmo assim podem estar em risco devido à perda de habitat.”­ (CLAUDIO ANGELO)

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