Reduzir desmatamento não é suficiente, dizem especialistas

21/09/2015

Especialistas reconhecem avanços do Brasil em políticas florestais, mas cobram ações em outros setores e metas independentes do cenário internacional no acordo do clima

Especialistas são céticos quanto a compromisso de desmatamento zero. Foto: Jorge Araújo/Folhapress
Especialistas são céticos quanto a compromisso de desmatamento zero. Foto: Jorge Araújo/Folhapress

CÍNTYA FEITOSA (OC)

Ainda que o Brasil assuma compromisso de zerar o desmatamento, políticas de redução de emissões não podem ser deixadas de lado. Especialistas reunidos nesta segunda-feira em seminário promovido pela Folha de S. Paulo debateram o cenário brasileiro para o acordo do clima e foram unânimes em afirmar que a política climática do país deve ser tratada de forma transversal. A opinião foi compartilhada por representantes do governo, da academia e de organizações da sociedade civil.

O debate ocorre a pouco mais de dois meses da COP 21, a Conferência das Nações Unidas que deve ter como resultado um acordo global do clima. O governo brasileiro tem sinalizado, em agendas bilaterais, que apresentará uma proposta pouco ousada em mudanças estratégicas no setor de energia, e deve ter como foco as políticas de redução de desmatamento.

O professor Eduardo Viola, da Universidade de Brasília, criticou as metas brasileiras em relação às florestas. “Uma meta de desmatamento ilegal zero só em 2030 é fora da realidade no momento em que a população pede mais justiça”, disse, citando o compromisso firmado pela presidente Dilma Rousseff no encontro com Barack Obama, presidente dos EUA.

Viola afirmou ainda que a análise da posição brasileira quanto à responsabilidade sobre emissões desconsidera que a devastação no país ocorreu de forma “improdutiva”, uma vez que as altas taxas de desmatamento nas últimas décadas não geraram riqueza para o Brasil. Também criticou o incentivo nacional à indústria automobilística e ao petróleo a partir da crise global de 2008, quando a tendência mundial já era de declínio de emissões e de investimentos em renováveis.

O diplomata Everton Lucero, chefe da divisão de Clima do Ministério das Relações Exteriores, afirmou que a crítica de Viola sobre as “emissões catastróficas” de 1992 a 2005 não é válida. “De acordo com os compromissos que foram negociados, cabia e continua cabendo aos países desenvolvidos que tomem a dianteira nessas medidas.”

Lucero afirmou que o Brasil não se comprometerá com o desmatamento zero na COP 21, mas defendeu que o compromisso isolado do país não interfere no resultado final da conferência. “Paris não é o fim. É o começo.”

O secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, diz que o Brasil deveria considerar as vantagens de eliminar o desmatamento, independentemente do acordo do clima e das metas dos outros países. “Um país como o nosso, assumindo um compromisso substantivo, poderia fazer a diferença no acordo do clima. Mas essa meta pode ser assumida também pelos benefícios que traria ao país”, disse. “Se for bom para a nossa economia, para a segurança hídrica e para todos nós, por que não fazer?”, acrescentou, defendendo também que uma meta ambiciosa colocaria o Brasil em posição de cobrar dos outros países um posicionamento semelhante.

Meta improvável

A meta de desmatamento absoluto zero, defendida por organizações da sociedade civil, é considerada improvável. “É desejável, mas não é factível”, diz o professor da UFMG Raoni Rajão. “Isso depende do processo de modernização da agricultura e pecuária.” Para Raoni, o business as usual – um cenário em que não há mudanças no atual modelo de negócios – da agropecuária não deve ser contabilizado dentro da meta ambiental. A agricultura, por exemplo, deve exigir 200 mil km2 para expansão até 2030 e o Cerrado abriga a maior parte dessas áreas.

Raoni defende que, mesmo que não seja possível em um curto prazo, a meta de desmatamento zero deve ser considerada. “O Brasil pode não ter a obrigação internacional de zerar o desmatamento. Mas é uma demanda antiga da sociedade.” Raoni destacou que o acordo que será firmado em Paris só entra em vigor em 2021, e afirmou que metas como desmatamento líquido ou ilegal zero são passíveis de distorções.

Thelma Krug, pesquisadora do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), também não considera viável a meta de zerar o desmatamento, mas reconhece que o compromisso colocaria o país em outro patamar. “Se conseguir chegar ao desmatamento zero, o Brasil será reconhecido internacionalmente como o país que mais contribuiu”, afirmou.

Krug também afirmou que é necessário abordar a questão climática de forma transversal e que o setor energético deve passar por transformações, uma vez que o perfil de desenvolvimento do país mudou nos últimos anos e as emissões do setor de energia aumentaram de forma expressiva.

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