13 - março - 2018

Sabe aquela nevasca em Nova York? Põe na conta do aquecimento global

Estudo sugere um aumento da frequência de invernos excepcionalmente frios na costa leste dos EUA, na Europa e na Ásia, como resultado do aquecimento do Ártico

Carros cobertos de neve em Boston. (Foto: divulgação)
Carros cobertos de neve em Boston. (Foto: divulgação)

DO OC – Donald Trump não deixa escapar nenhuma oportunidade. Basta uma nevasca mais forte em Nova York ou uma onda de frio mais intensa em Washington no inverno americano para o presidente correr para o Twitter e fazer a pergunta de sempre: “Cadê o aquecimento global?” Um estudo publicado nesta semana sugere uma resposta ao tuiteiro-em-chefe: está logo ali em cima. No Ártico.

Um trio de pesquisadores americanos afirma que a série de tempestades de inverno que têm se abatido sobre a Costa Leste dos EUA nos últimos anos, com recordes de acúmulo de neve e apelidos como “snowzilla” e “snowmageddon” (trocadilhos com a palavra “snow”, ou “neve”, em inglês, e alegorias como Armagedom e Godzilla), pode ter relação direta com o aquecimento anormal da região ao redor do polo Norte.

Uma ampla análise de dados dos últimos 65 anos permitiu aos pesquisadores relacionar as temperaturas cada vez mais quentes do Ártico – até 10°C acima da média no inverno – ao aumento da intensidade do frio em partes dos EUA. “As mudanças climáticas estão levando as baixas temperaturas do Polo Norte para regiões temperadas. É um fenômeno anunciado, severo e perigoso”, disse Jennifer A. Francis, física atmosférica da Universidade Rutgers e uma das autoras do estudo. O trabalho foi publicado no periódico Nature Communications.

Em janeiro de 2018, a extensão da camada de gelo no Ártico foi a menor das últimas décadas, com porções derretendo antes do final do inverno. Simultaneamente, a cidade de Boston registrou a temperatura mais fria do último século, assim como Minneapolis, Chicago e Detroit. Nevou em Roma este ano e algumas cidades da Ásia registraram as menores temperaturas dos últimos cem anos.

Há alguns anos, Francis publicou uma série de estudos sugerindo como as duas coisas podem estar relacionadas. O fato é que o Ártico está perdendo a capacidade de reter suas massas de ar frias. O anel de ventos gelados que contorna o Polo Norte e aprisiona o ar frio em altas altitudes, chamado vórtice polar, vem perdendo a força e deixando escapar parte do frio para regiões de clima temperado.

No início do inverno, é raro presenciar esse fenômeno, já que apenas a camada atmosférica mais próxima da superfície terrestre está aquecida. No entanto, do meio até o final do inverno, o aquecimento atinge também camadas mais altas, chegando ao ponto de mobilizar colunas inteiras de ar. Isso aumenta exponencialmente a probabilidade de criar brechas que permitam ao ar frio, mais alto, escapar. Em outras palavras, o ar gelado do Ártico “pula o muro” e vai tocar o terror em latitudes mais baixas, como em Nova York e Boston – mas também em Londres, Amsterdã e até Veneza, como vimos neste inverno.

O novo estudo acrescenta mais evidências diretas à tese de Francis, que foi objeto de controvérsias no começo da década. Ela e seus colegas Judah Cohen e Karl Pfeiffer aplicaram três métricas para precisar a relação entre as temperaturas árticas mais quentes e o clima severo de inverno nos Estados Unidos. Duas delas incluíram as anomalias de temperatura e uma delas, a intensidade das condições climáticas e sua duração. “A relação é muito forte e o fenômeno tem se tornado mais comum com o aumento do calor do Ártico”, disse Francis.

Em janeiro e fevereiro deste ano, a massa de ar frio que se dispersou do anel de ventos foi tão poderosa que se dividiu em duas: metade dela foi para o norte da Europa e Ásia e a outra metade para o noroeste do Canadá, causando um resfriamento intenso também na região oeste dos Estados Unidos, onde a ligação entre invernos frios e calor polar tem sido menos clara nos registros históricos.

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